domingo, 9 de setembro de 2007

Caso Patachó

EMENTA


“PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM SENTIDO ESTRITO. HOMICÍDIO DOLOSO. DESCLASSIFICAÇÃO. LESÕES CORPORAIS SEGUIDAS DE MORTE. PRETERDOLO.
Se a intenção dos agentes foi a de provocar um susto na vítima, ao acordar com o pano que cobria suas pernas em chamas e não o de causar a sua morte, diante fazerem-se presentes uma conduta dolosa - atear fogo -, e outra culposa - a morte -, derivada da violação do dever de cuidado, resta configurado o crime preterdoloso que impõe se desclassifique a imputação de homicídio doloso para lesões corporais seguidas de morte.”


Acórdão


Acordam os Desembargadores da Segunda Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, JOAZIL M. GARDÉS - Relator, GETÚLIO PINHEIRO e APARECIDA FERNANDES - Vogais, sob a presidência do Desembargador GETÚLIO PINHEIRO, em, POR UNANIMIDADE DE VOTOS, CONHECER DO RECURSO, REJEITAR A PRELIMINAR E LHE NEGAR PROVIMENTO. UNÂNIME, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.
Brasília (DF), 05 de março de 1998.



Des. Getúlio Pinheiro
Presidente



Des. Joazil M. Gardés
Relator




RELATÓRIO

Senhor PRESIDENTE, Senhores DESEMBARGADORES.

A representante do Ministério Público, perante o Tribunal do Júri da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília-DF, qualificando-os, denunciou MAX ROGÉRIO ALVES, ANTÔNIO NOVELY CARDOSO DE VILANOVA, TOMÁS OLIVEIRA DE ALMEIDA e ERON CHAVES OLIVEIRA, por infração ao que se dispõe no artigo 121, §2º, I, III e IV do Código Penal e artigo 1º da Lei nº 2.252/54 e artigo 1º, da Lei nº 8.072/90, alegando, em resumo, que no dia 20 de abril de 1997, por volta das 05:00 horas, na EQS 703/704, na Av. W3-Sul, nesta Capital, após divertirem-se durante toda a noite, procurando dar continuidade à diversão, juntamente com o menor GUTEMBERG NADER ALMEIDA JÚNIOR, jogaram substância inflamável em GALDINO JESUS DOS SANTOS, índio Pataxó, que dormia no banco da parada de ônibus, e atearam fogo, fazendo dele uma tocha humana, assumindo o risco de provocar o resultado morte, o qual veio a ocorrer, em razão das queimaduras em todo o corpo, fazendo-se presentes as qualificadoras motivo torpe (para se divertirem), meio cruel (queimadura) e recurso que tornou impossível a defesa do ofendido ( atacado enquanto dormia); e, que ao cometerem o crime com um menor de 18 anos de idade, facilitaram a sua corrupção.
No juízo de admissibilidade da acusação, a MM Juíza de Direito, Presidenta do Tribunal do Júri, com apoio no que se dispõe nos artigos 408, §4º e 410, do Código de Processo Penal, desclassificou a imputação de homicídio doloso, para o crime de lesão corporal seguida de morte (Código Penal, artigo 129, §3º), (fls.570/592).
Irresignado o Órgão do Ministério Público interpôs Recurso em Sentido Estrito, arrazoando, ao longo de 24 laudas, que

“...Adentrando o mérito, a MM Juíza transcreve alguns depoimentos e menciona outros, valorando-os de forma, data venia, indevida, razão por que decidiu que os acusados, embora jogando combustível e ateado fogo na vítima, não teriam assumido o risco de produzir o resultado morte. Faz longo arrazoado sobre a diferença entre dolo eventual e culpa consciente, transcrevendo doutrina e jurisprudência que julga aplicável ao caso. Não decidiu com o costumeiro acerto, ...”;

segue argumentando que houve equívoco da i. magistrada ao admitir a versão dos acusados, uma vez que agiram com dolo eventual, não comportando, por isso, a desclassificação, uma vez que, até mesmo demonstrou ter dúvidas diante da linha divisória entre o dolo eventual e o preterdolo, motivo que comportava utilizar o princípio pro societate, para pronunciá-los e não podia impedir ao Júri apreciar a causa que lhe está reservada na Carta Política; que aos jurados e não ao magistrado singular, cabe o julgamento, e, se for o caso, a desclassificação; que para chegar à desclassificação foi procedida profunda apreciação do mérito da causa, em contraposição à doutrina e à jurisprudência, ferindo de morte o princípio in dubio pro societate, fato que abala as vigas mestras da estrutura jurídica, atingindo a norma constitucional contida no artigo 5º, XXXVIII e transgredindo as regras expressadas nos artigos 408, 410 e 74, §1º do Código de Processo Penal; que aprofundar a discussão sobre o mérito não é a melhor técnica, não foi o momento processual o melhor, daí porque a decisão deve ser reformada, para pronunciar os réus nos termos da denúncia.
Da sentença de desclassificação, a Assistência da Acusação, promovida pela doutora HERILDA BALDUINO DE SOUZA, por termo (fl.600), interpôs Recurso em Sentido Estrito, o qual foi indeferido, diante da igual iniciativa do Órgão do Ministério Público, assegurando a ela arrazoar o recurso interposto pelo parquet.
Posteriormente, os doutores Assistentes da Acusação opuseram Embargos de Declaração, argüindo ser a sentença omissa quanto ao delito de corrupção de menores (fls.606/607), advindo, então a decisão de fls.609/611, que não conheceu dos embargos, diante da preclusão que se operou pela interposição do recurso em sentido estrito, que não cogitou de embargar a questão, uma vez que o recurso devolve o conhecimento amplo e total e, que a Assistência da Acusação não tem legitimidade autônoma para interpor o recurso, por haver o Ministério Público interposto o recurso cabível.
A Assistência da Acusação ofertou razões no Recurso interposto pelo Ministério Público, postulando pela pronúncia dos réus nos termos da Denúncia.
Em contra-razões, ERON CHAVES OLIVEIRA e TOMÁS OLIVEIRA DE ALMEIDA (fls.703/722), aduziram que a desclassificação da imputação, obedeceu aos mandamentos constitucionais objetivando garantir os direitos fundamentais e subjetivos dos recorridos de se submeterem a julgamento perante a Justiça Togada; que a desclassificação para o crime de lesões corporais seguidas de morte, não ofende a lei federal; que a decisão hostilizada faz-se acertada, lembrando que a linha divisória entre o dolo eventual e a culpa consciente não é a previsibilidade subjetiva e tampouco a previsão objetiva, mas o aceitar o resultado como decorrência da conduta do agente, observando-se, ainda, o nexo de causalidade entre ambos, pena de configurar o caso fortuito; que somente do ponto de vista da Acusação, os recorridos aceitaram o resultado de forma indiferente, estando o desespero da fuga a revelar a surpresa com o resultado e não a certeza da sua produção. ANTÔNIO NOVELY CARDOSO DE VILANOVA (fls.731/745), lembrando que na r. sentença, sem deixar se influenciar pela mídia, esclareceu a diferença entre o dolo eventual e a culpa consciente, para concluir que os recorridos ao praticarem a conduta descrita na denúncia não o fizeram assumindo o risco do resultado morte; analisando os fatos, assevera ter ocorrido ERRO NA EXECUÇÃO DA BRINCADEIRA que era apenas de assustar a vítima, tanto que desesperados, correndo, abandonaram o local; discorre sobre o que vem a ser o dolo eventual e conclui pela ausência do animus necandi, que confere robustez a sentença desclassificatória. MAX ROGÉRIO ALVES (fls.746/817), juntando documentos, refuta os argumentos postos no recurso, argüindo que, se a intenção fosse a de matar não teriam empregado meio de pouca potencialidade lesiva (fogo); que intentaram fazer uma brincadeira, sobrevindo do acaso a tragédia; que agiram de forma leviana e desastrada, nunca premeditada, o que restou demonstrado ainda no fragor dos acontecimentos, posto que não tinham a intenção de matar e que tudo ocorreu à conta de um erro de cálculo, de uma terrível fatalidade, tendo se espelhado no quadro exibido na TV, denominado “A ponte do rio que cai” (uma deturpação do título do filme A PONTE DO RIO KWAY, no qual retrata episódio da 2ª Guerra, filme épico, ganhador de sete oscars, em 1957), no qual o concorrente deve atravessar uma pinguela, debaixo de uma saraivada de bolas e indaga: “se o jovem viesse, em conseqüência da bolada ou da queda da ponte, a morrer, poder-se-ia falar em homicídio doloso, direto ou eventual? Foi mais ou menos o que aconteceu”, ao desejarem fazer uma brincadeira, responde; que existe nítida distinção entre o dolo eventual e a culpa consciente; que foram ao posto de gasolina para abastecer o carro e não com o propósito predeterminado de atearem fogo em alguém e, na volta, foi que mudaram de desígnio, sem o pretenso animus necandi, estando a acusação oficial posta sobre uma versão parcial, arbitrária, fantasiosa e absurda, de quem se julga dona da verdade e passa a discorrer sobre o trabalho elaborado pelo Químico ROBERVAL LECH GUERREIRO, no qual dá ênfase a cinco aspectos que permitem acreditar na total ausência de dolo nas intenções dos “caboclinhos”; prossegue defendendo a revogação da prisão preventiva; profliga a pesquisa do “Fantástico” do dia 14.8.97, sobre a intenção dos requeridos de matar o índio; acicata a fala Presidencial de que não terá sossego enquanto não sejam punidos os responsáveis pelo massacre de Corumbiara e do assassinato do índio Pataxó, posta como bandeira política da reeleição.
No Juízo de retratação, restou mantida a decisão recorrida (fls.820/830).
Ao apresentar o parecer de fls.835/879, no qual a douta Procuradoria de Justiça opina pelo conhecimento e provimento do recurso, sua ilustre subscritora, doutora SANDRA MENDES GONZAGA NEIVA, fez juntar parecer elaborado pelo Professor DAMÁSIO EVANGELISTA DE JESUS e cópia do Fax do Pronto Socorro para Queimaduras Ltda, de Goiânia (GO), (fls.880/903) e, por cota nos autos, alega estar a e. Primeira Turma Criminal preventa para julgar o recurso, porquanto, perante a Câmara Criminal, integrante do seu quadro, foi o relator do Mandado de Segurança nº 7254/97, que trata de matéria correlata, o que antecedeu aos habeas corpus nºs 7.651 e 7.772, julgados por esta Turma Criminal.
Às fls.907/912, a Defesa de MAX ROGÉRIO ALVES, fez juntar carta do Químico ROBERVAL LECH GUERREIRO, enfocando ser errônea a recomendação contida no manual de primeiros socorros da Volkswagen, de que se deve usar cobertor para abafar as chamas, e, que para derramar o conteúdo de um frasco de um litro ocorre tempo suficiente para despertamento e auto defesa. Dos mesmos foi aberto vista à Procuradoria de Justiça que manifestou às fls.914/916, oportunidade que, valendo-se de dispositivo inexistente no RITJDF, reiterou o pedido de envio dos autos à e.1ª Turma Criminal, que tem à conta de preventa.
Dos documentos trazidos por MAX ROGÉRIO, a Assistência da Acusação manifestou-se à fl.918 e, sobre os documentos apresentados com o parecer da Procuradoria de Justiça e de sua alegação de estar preventa a e. Primeira Turma Criminal, as Defesas de ERON CHAVES OLIVEIRA e TOMÁS OLIVEIRA DE ALMEIDA e de MAX ROGÉRIO ALVES exprimiram os conceitos de fls.920/923 e 925/944, ofertando o último, cópia de decisão de Juízo Americano que modificou outra proferida anteriormente, ditada pela influência da mídia e pela opinião pública, a qual fez-se traduzir por tradutor oficial, fls.957/960.
É o relatório.


O Senhor Procurador de Justiça EDUARDO ALBUQUERQUE

Senhor Presidente, Senhor Relator, eminentes Desembargadores, embora saiba que o Ministério Público pode fazer sustentação por tempo indeterminado, quando na função de custus legis, não vou, aqui, delongar-me mais de dois ou três minutos.
Primeiro, cumpre-me analisar a questão da preliminar levantada pelo ilustre advogado, Doutor Luiz Eduardo Greenhalgh, da tribuna desta sessão, matéria que já foi objeto de pedido da ilustre Procuradora Sandra Mendes Neiva, nos autos, requerimento dirigido ao ilustre Relator.
Ao que me parece, no caso, não haveria a prevenção, porque julgou-se, realmente, primeiro, o Mandado de Segurança na Câmara Criminal.
Sabemos todos, que a Câmara é a reunião das duas Turmas, e o Desembargador Relator, na Câmara, não fica prevento se o processo for para uma das Turmas.
Seria o mesmo que admitir que o Presidente do Tribunal despachasse uma medida liminar e ficasse prevento para julgar, numa turma, quando ele não a compõe.
Demais disso, o processo é primeiro distribuído para a Turma, e, na Turma, para o Desembargador. Se o processo veio para a Segunda Turma Criminal, e, em seguida, notou-se que o Desembargador Joazil M. Gardés está prevento em razão de um habeas corpus, por isso sim, foi para ele. Não deveria ter sido direcionado, como quer o il. assistente de acusação, e como verdadeiramente se posicionou minha nobre colega, que fosse distribuído para a Primeira Turma Criminal, Desembargador Everards Mota e Matos, por ter julgado o Mandado de Segurança.
O Regimento Interno parece-me bem claro a esse respeito, e, à míngua de qualquer outra legislação, o Regimento parece-me aplicável ao caso.
Quanto ao mérito, a questão já foi bem debatida, foi bem posicionada tanto nas razões de apelo quanto no parecer da Procuradoria de Justiça. E o parecer da Procuradoria transcreve, ipsis litteris, o parecer do Professor Damásio de Jesus, que, a pedido da Procuradoria Geral, emitiu as suas opiniões que estão bem colocadas nos autos.
Não gostaria de delongar-me citando pareceres, lendo trechos ou fragmentos do parecer do Professor Damásio de Jesus, porque fica-me parecendo que Vossas Excelências não o leram. Então, eu me desculpo e reporto-me integralmente ao parecer ofertado pela Procuradoria de Justiça.
Muito obrigado.


O Senhor Desembargador JOAZIL M. GARDÉS - Relator

Antes de proferir o meu voto, apresento à família de GALDINO DOS SANTOS as minhas condolências. Faço-os saber que muito senti a sua morte, ainda mais que, até aos três anos de idade, vivi em uma aldeia indígena, em que o meu pai, na função de “Auxiliar de Sertão”, era responsável pelo posto indígena “SIMÕES LOPES”, (vinculado à 6ª Inspetoria Regional do Serviço de Proteção aos Índios - SPI), no Estado de Mato Grosso, às margens do Rio Paranatinga, onde vivem os índios Bacairis. Lá, sendo minha mãe a professora dos pequenos curumins, com eles brincava e vivenciava os folguedos da infância, inclusive com os banhos, quase diários, nas águas turvas do piscoso rio; por tudo isto, faço-os saber que tenho na alma profunda identidade e laços que me prendem às nações indígenas e sentimento pela proteção que a FUNAI e muitas missões religiosas a elas fingem proporcionar; pela negligência do Poder Central na demarcação de suas terras, tão gananciosamente usurpadas por grileiros de todas as espécies, deixando-os na penúria; pelos males que as suas puras constituições físicas são acometidas, pelos vícios que os aviltam e corrompem; e pelas doenças que lhes são transmitidas pelos brancos, sem contar as afrontas às suas dignidades, vítimas que são as suas filhas e mulheres, muitas vezes violentadas. Confio que um dia, todas essas injustiças serão reparadas; tenho certeza.


VOTOS

O Senhor Desembargador JOAZIL M. GARDÉS - Relator

Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso.

PRELIMINAR

Como uma questão prejudicial, cuido do pedido de estudo de estar preventa a e.1ª Turma Criminal para processar e julgar o recurso, formulado pela ilustre Procuradora de Justiça, doutora SANDRA MENDES GONZAGA NEIVA, e sustentada da tribuna pela Assistência da Acusação, a entendimento de que o e. Desembargador EVERARDS MOTA E MATOS, integrante daquela fração julgadora, em data anterior às das impetrações dos HBC nºs 7651/97 e 7772/97, perante a Câmara Criminal, foi Relator do MSG nº 7254/97, impetrado pela JUSTIÇA PÚBLICA “contra ato da Excelentíssima Srª Drª Juíza Substituta da Vara do Tribunal do Júri da Justiça do DF e Territórios, que se deu por competente para julgar o assassínio do índio “pataxó” em detrimento da competência constitucional da Justiça Federal” (acórdão, fls.617/619). Dispensável dizer, quanto a decisão do mandamus.
A incompetência do juízo se argúi através de exceção, por meio de petição ou verbalmente, no prazo de defesa (CPP, art.108) e se processa em autos apartados (CPP, art.111).
O primeiro óbice que vislumbro a se antepor, ao exame do pedido, é o da sua extemporaneidade, vez que os autos foram conclusos à douta Procuradoria de Justiça no dia 1º de outubro de 1997, e, no dia 13, do mesmo mês e ano, foi que argüiu estar preventa a e.1ª Turma Criminal, sabendo-se que o prazo para essa diligência é de oito (8) dias, aqui aplicando, por analogia, o prazo previsto para o oferecimento das razões (CPP, art.600), porquanto o prazo a que se refere no artigo 108, do Código de Processo Penal, diz respeito à Defesa, no tríduo, para as primeiras alegações, o qual tenho que não se aplica ao Ministério Público em segunda instância, ainda que a Procuradoria de Justiça, no julgamento dos recursos não seja considerada como parte e oficie tão somente como fiscal da lei.
O segundo, porque, em sendo a Câmara Especializada integrada pelos componentes das duas Turmas Criminais, a distribuição de Mandado de Segurança ou de qualquer outro feito, a um dos seus membros, não previne a competência da Turma a que pertença o magistrado, para o julgamento dos feitos que se lhe seguirem. Se assim fosse, por força da prevenção, os HBC nºs 7651/97 e 7772/97, não teriam sido distribuídos à e. 2ª Turma Criminal, mas à 1ª Turma Criminal.
Aliás, a competência por prevenção, diz respeito a ato da autoridade com carga decisória capaz de demonstrar ter o magistrado conhecimento do fato incriminado (STJ - C.Comp.650 - 3ª Seção) e não da Turma a que, eventualmente, esteja ele vinculado, sendo de se notar que, em segundo grau, “o conhecimento do habeas corpus torna preventa a competência do relator para todos os recursos posteriores” (Código de Processo Penal Anotado - Prof. DAMÁSIO DE JESUS, nota ao art.83). Foi o que sucedeu. Fui o relator do HBC nº 7651/97, daí, porque, tornei-me prevento para o julgamento deste recurso.
Ademais, cabe observar, que não tendo a V. Câmara Criminal competência para processar e julgar recurso em sentido estrito, afastada fica a possibilidade de se tornar preventa essa ou aquela Turma, em razão de haver Desembargador que a compõe, por primeiro, conhecido de matéria correlata ao feito.
Destarte, rejeito a questão prejudicial e declaro estar preventa esta e. Turma Criminal para, sob a minha relatoria, processar e julgar o recurso.


O Senhor Desembargador GETÚLIO PINHEIRO – Presidente-Vogal

Meu voto é acompanhando o eminente Relator quanto à preliminar.
O Mandado de Segurança foi distribuído ao eminente Desembargador Everards Mota e Matos como integrante da Câmara Criminal. De acordo com a parte final do art. 62 do Regimento Interno, não há prevenção se a decisão já houver transitado em julgado ou não trate de matérias correlatas. Ora, o objeto do Mandado de Segurança era apenas para estabelecer a competência da Justiça Federal, no qual não se discutiu matéria objeto do presente recurso.
Rejeito, pois, a preliminar.


A Senhora Desembargadora APARECIDA FERNANDES – Vogal

Senhor Presidente, a preliminar arguída não tem qualquer sustentação jurídica e a matéria foi bem discutida por Vossa Excelência e pelo eminente Relator, por isso, também, a rejeito.


MÉRITO

O Senhor Desembargador JOAZIL M. GARDÉS - Relator

Antes de enfrentar as questões postas no Recurso em Sentido Estrito, faço ligeiro caminhar pela História do Cristianismo, trazendo à reflexão o simulacro de julgamento a que foi submetido JESUS DE NAZARÉ.
Era meia-noite do dia 7 de abril, sexta-feira. No Horto das Oliveiras, milhares de fantasmas planavam sobre as copas das oliveiras e JESUS e seus discípulos embrenharam-se no olival, enquanto DAVI ZEBEDEU e JOÃO MARCOS mantinham vigilância extra, cobrindo o flanco oriental do acampamento e o caminho junto à porta de entrada do horto. JESUS orava. PEDRO, JOÃO e TIAGO dormiam. Com voz apagada e suplicante o Galileu exclamou :

“Abbá! ... Abbá”,
palavra aramaica que significa “papai” e murmurou de novo:

“Abbá! Vim a este mundo para cumprir a tua vontade e assim tenho feito ...Sei que é chegada a hora de sacrificar a minha vida carnal ... Não o recuso, desejaria saber se é tua vontade que eu beba este cálice. ... Dá-me segurança de que eu, com minha morte, te satisfaça como fi-lo em vida.”,

então, o suor que corria de seu rosto, converteu-se em sangue; gotas de sangue rolaram do couro cabeludo, até perderem-se no bigode e na barba, momento que desceu do céu um anjo e o reconfortou.
JESUS guardou silêncio, inclinou a cabeça, cerrou os olhos e voltando a olhar ao céu exclamou:

“E agora Pai meu, se este cálice não pode ser afastado ... dele beberei. Que se faça tua vontade e não a minha ...”.

À uma hora e quinze minutos da madrugada o Nazareno abandonou o Getsêmani e foi interceptado pelos legionários da Fortaleza Antônia, seguidos de quarenta a cinqüenta levitas armados de bastões e maças com cravos. JUDAS se adiantou; JESUS dele se esquivou e dirigindo-se aos soldados, perguntou-lhes o que buscavam e ao responderem: JESUS DE NAZARÉ, a eles se identificou, levando-os a retrocederem e caírem; nessa ocasião, JUDAS acercou-se do MESTRE, abraçou-o, e deu um beijo na sua fronte; JESUS afastou o abraço e se entregou ao oficial romano, sendo amarrado com os braços atados às costas, pelo guardião do Sinédrio, o sírio MALCHUS ou MALCO e, uma vez imobilizado, foi levado a Jerusalém.
Faltavam dez minutos para as duas da madrugada; JESUS foi conduzido ao palácio do ex-sumo sacerdote ANÁS, onde foi retido e interrogado, até que os saduceus, escribas e fariseus, comprometidos com a trama o apresentasse diante do sumo sacerdote CAIFÁS.
Eram duas e quinze da madrugada quando ARSENIUS, o oficial romano, entregou o prisioneiro ao chefe dos Levitas e ordenou a um dos legionários que o acompanhasse, para evitar a sua morte, sem que fosse consentida por PÔNCIO PILATOS, e permitiu que JOÃO, o Evangelista, o seguisse o tempo todo.
No pátio, SIMÃO PEDRO, por quatro vezes negou ser um dos discípulos do Galileu. Dali, o Mestre foi transferido para o Sinédrio, onde estava instalado o Tribunal para o “julgamento”.
Vinte e três sacerdotes compunha o “Sinédrio Menor”, com competência em matéria criminal, e mais integrantes do “Sinédrio Maior”, ladeados por dois escribas, formavam o Tribunal. JESUS foi colocado de frente a estes Juízes, presidido pelo sumo sacerdote JOSE BEN CAIFÁS. Ouviram-se as testemunhas compradas pelo Sinédrio, que depuseram contra os ensinamentos e a pessoa do Galileu, centrando os seus ataques nas violações dos sábados e das leis mosaicas, convertendo a sessão em uma farsa, diante das contradições dos perjuros, o que levou alguns Juízes, envergonhados, a baixarem a cabeça e agitarem-se, nervosamente, nos assentos. Um dos últimos testemunhos, acusou o Mestre de “homicídio frustrado” por desafiar, no episódio que salvou uma adúltera da lapidação popular, “aquele que estivesse livre de pecado a atirar a primeira pedra”, considerando aquele gesto como incitatório ao assassínio (pela lei judia era considerado culpado aquele que golpeasse o próximo com uma pedra, de maneira tal que pudesse ser morto).
Terminado os “depoimentos”, CAIFÁS perguntou ao Mestre se não responderia às acusações, tendo este permanecido em silêncio, silêncio que enfureceu CAIFÁS. Nessa ocasião, ANÁS procedeu à leitura das acusações, que não mereceram qualquer resposta de parte de JESUS. Ameaçador, CAIFÁS, ordenou dissesse ser o Libertador, o filho de Deus. Ouviu-se a resposta, em voz potente:

“Sou ... E irei logo para junto do Pai. Em breve, o Filho do Homem será revestido de poder e reinará de novo sobre os exércitos celestes.”.

Em sua fúria, CAIFÁS desferiu uma bofetada na face esquerda do Mestre, ferindo-lhe o pômulo com os anéis. JESUS baixou os olhos.
Os Juízes continuaram a vociferar:

“Morte ...! Morte ...!”.

ANÁS sugeriu fossem reunidas novas acusações que pudessem comprometer o réu perante a autoridade romana, ao que se opuseram os sacerdotes, diante da possibilidade de vir PÔNCIO PILATOS a deixar a Cidade Santa, voltando para Cesaréia; a seguir, abandonaram a sala e, um após o outro, cuspiram no rosto do Mestre. Foram trinta cusparadas, que levaram JOÃO a vomitar, impressionado pelas repugnantes expectorações. Dessa forma, concluíram a primeira parte do “julgamento”. Eram seis e meia da manhã.
De mútuo acordo, CAIFÁS e seus adeptos retiraram-se do Tribunal e reduziram as vinte e quatro horas de reflexão e jejum, que deviam preceder à emissão da sentença, para trinta minutos.
Nesse período, o Nazareno foi levado para um cômodo de reduzidas dimensões, onde policiais e criados do templo se recostavam. Momentos depois, um grupo de mercenários se acercou do Mestre, desfizeram-no de seu manto e passaram a interrogá-lo sobre seus discípulos, aos quais chamavam de “cúmplices”. Diante do seu silêncio, ocorreu novo esbofeteamento, que o fez cambalear mas permaneceu sereno, sem deixar escapar um único gemido, fato que avivou o furor dos Levitas a recrudescer o castigo, fazendo derramar boca-a-baixo, um cântaro de água, tendo um dos esbirros lançado um pontapé contra o baixo ventre, fazendo JESUS gemer, ao tempo que caiu batendo o rosto no chão. Nesse instante o legionário interveio, para que não fosse morto. Os Levitas cobriram-lhe a cabeça com o roupão e impingiram atrozes golpes de bastão no rosto, para que adivinhasse quem o golpeava. Era o chamado jogo MUINDA. JESUS tinha o rosto desfigurado pela brutalidade do castigo.
Pelas sete da manhã, o Nazareno retornou para enfrentar o Conselho. ANÁS insistiu na idéia de redigir acusações que comprometessem o Rabi com a Justiça que PILATOS representava. Naquele momento, três fariseus renunciaram a continuar participando do “julgamento”, porque não podiam tomar parte daquela ilegalidade “a menos que o Nazareno fosse conduzido perante PÔNCIO PILATOS e uma vez que se lhe fizesse saber por que motivo fora condenado”. CAIFÁS suspendeu a sessão.
Às sete e meia da manhã, os saduceus, os escribas e uns poucos fariseus, desfilaram diante de JESUS, e CAIFÁS ordenou tomassem o caminho do quartel-general romano. Faltava pouco para as oito da manhã quando o cortejo chegou à Torre Antônia. PILATOS perguntou-lhes quais as acusações pendiam sobre aquele homem ao que um dos saduceus disse ser um malfeitor. PILATOS perguntou-lhes por que não o julgavam de conformidade com as lei judias? Perturbados responderam que precisavam que ele ratificasse a sentença de morte. Nesse momento PILATOS informou que não o condenaria sem julgamento, nem o interrogaria sem que lhe fosse entregue por escrito as acusações. Nesse instante, CAIFÁS fez a entrega de um rolo a um dos escribas e rogou, ao Procurador Romano, ouvisse as “acusações”.
Ao ser feita a leitura, PÔNCIO PILATOS compreendeu que se tratava de uma vingança contra aquele que foi capaz de desafiar a autoridade do sumo pontífice e ridicularizar as castas religiosas. PILATOS indagou ao Galileu o que tinha a alegar em sua defesa. JESUS não levantou o rosto, sendo conduzido ao interior da casa, permanecendo CAIFÁS e os Juízes do lado de fora.
PILATOS retomou o interrogatório, não antes afirmando não acreditar nas acusações. CAIFÁS e os saduceus passaram a gritar, tendo um dos sinedristas censurado o Procurador, daí porque PILATOS mandou fosse o Galileu levado a HERODES ANTIPAS, Tetrarca da Galiléia (HERODES ANTIPAS era filho de HERODES o Grande, aquele que determinou a matança dos inocentes).
CIVILIS conduziu JESUS a HERODES, com ordem de trazer as conclusões, após o interrogatório.
Na manhã de sexta-feira, véspera da Páscoa, num gesto de amizade e simpatia de Roma para com os seus súditos, os judeus desfrutavam da prerrogativa de subir até as imediações do Pretório, para assistirem a libertação de um preso e o nome que soava com mais força era o de BARRABÁS, membro ativo do grupo revolucionário “zelote”.
O interrogatório por HERODES foi breve e estéril. Às perguntas JESUS não deu uma só resposta. HERODES temia fosse o Galileu a reencarnação de JOÃO BATISTA, primo de JESUS, a quem ele assassinou a pedido de sua amante HERODÍADES, mulher que tomou de seu irmão FELIPE, Tetrarca da Peréia.
Fazendo devolver o prisioneiro a PILATOS, HERODES asseverou que não proferia qualquer veredicto porque a Judéia não estava sob a sua jurisdição. A seguir, arrancou de um dos seus sabujos o manto de púrpura com que se cobria e o colocou sobre os ombros do Mestre, em sinal de mofa, manto que foi conservado até o momento da flagelação. A visita tinha terminado.
Eram dez da manhã quando retornaram a Fortaleza Antônia. PILATOS não tardou e dirigindo-se a CAIFÁS, asseverou não ter visto, em JESUS, falta alguma, quando a multidão assomou frente ao Pretório para assistir ao indulto de um réu, no que, manipulada por CAIFÁS e pelos saduceus pediram pela libertação de BARRABÁS, quando perguntado a quem queriam fosse libertado: BARRABÁS ou JESUS DA GALILÉIA.
Inúteis foram os gritos de JESUS, JESUS, proferidos por JOÃO ZEBEDEU, quase rompendo a garganta.
PILATOS foi vencido. Da sua cadeira observou a multidão e perguntou:

“Por que quereis crucificá-lo? que mal vos causou?”;

os sacerdotes gritaram:

“Crucifica-o ...! Crucifica-o ...!”

O vozerio impressionou tanto o Procurador que, assustado, retirou-se do terraço e ao voltar trazia a trágica ordem a CIVILIS, para que fosse o prisioneiro açoitado. Eram dez e meia da manhã. O Centurião lamentou a debilidade do Procurador.
JESUS foi levado ao pátio onde havia uma fonte com a deusa Roma. Os cavalos que ali eram escovados, de lá foram retirados e dezena de legionários se aproximaram para assistirem a iminente flagelação.
O flagrum ou látego curto de cabo de couro e metal, de trinta centímetros de comprimento, de onde partiam três correias de quarenta a cinqüenta centímetros, cada uma, tendo na ponta, pares de astrágalos (ossos do tarso) de carneiro, era portado por um dos verdugos, enquanto o outro tinha nas mãos a plombata, consistente de argolas de ferro de onde saíam duas tiras de couro, providas de um par de bolinhas de chumbo em cada ponta.
O Mestre foi colocado diante de um dos marcos em que se amarravam as rédeas dos cavalos, e despojado do manto de púrpura, bem como do roupão e da túnica que caíram em poças de urina; foi descalço das sandálias e teve os pulsos amarrados, agora, pela frente, sendo agrilhoado na argola metálica do marco, e arrebentada a peça mais íntima do seu vestuário, ficando nu.
PÔNCIO PILATOS se aproximou. Teve início a sessão de tortura, com a contagem dos golpes: UNUS! DUO! TRES! QUATTOUR! QUINQUE! TRIGINTA! QUADRAGINTA! que marcava os quatro ou cinco minutos do suplício. Estava encerrada a flagelação enquanto um soldado despejava no boca do Galileu água com sal, para evitar a desidratação pela profunda exsudação e a perda de sangue pelos açoites.
Para CIVILIS, a intenção era torturar o prisioneiro até o limite, de tal forma que o seu estado pudesse satisfazer e comover o agressivo ânimo dos saduceus. Uma vez esgotada a água, reiniciaram os golpes, quando no DUO-DE-VIGINTI (dezoito) uma das parelhas de astrágalo atingiu-lhe o mamilo esquerdo causando intensa dor que provocou o primeiro gemido do Rabi. O golpe foi tão potente que as cordas se romperam e o Mestre caiu para trás, deixando uma poça de sangue; QUADRAGINTA (na verdade era oitenta). O corpo estava deformado, inteiramente banhado em sangue, eis que surgiu LUCÍLIO gigantesco centurião, conhecido por sua força e crueldade, que tomando o flagrum do legionário desferiu feroz chicotada na parte baixa de JESUS, atingindo-lhe o cóccix, cuja dor reativou o seu sistema nervoso, mas seus músculos falharam e ele caiu de joelhos; um segundo golpe, terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono foram desferidos e, a cada um, os legionários repetiam “CEDO ALTERAM” (passo a outra).
A violência era tamanha que os esfincteres dos ureteres se abriram, provocando abundante micção, o que provocou um ataque mais violento de LUCÍLIO que, raivosamente, atingiu os testículos do Mestre.
CIVILIS ordenou parasse e pediu instruções ao Procurador, se deveria continuar o castigo. PILATOS hesitou. A água espargida sobre a cabeça e nuca fez com que JESUS recobrasse os sentidos. Eram onze horas da manhã. Deram-lhe nova dose de água com sal. O castigo foi tão desproporcional que o centurião temeu pela vida do prisioneiro, sendo impossível entender como pode aquele homem resistir-lhe. JESUS foi vestido. Os cavalos voltaram para junto da fonte.
Dois soldados entraram no pátio, levando nas mãos um estranho elmo trançado de sarça espinhosa e simulando uma reverência, enterrou-o na cabeça do Mestre. O alarido da soldadesca sufocou o gemido de JESUS. Seis fios de sangue desceram em sua fronte e têmporas. Não satisfeitos os soldados buscaram o manto vermelho e lançaram-no sobre os ombros do condenado. Outro legionário pôs uma vara entre suas mãos e declarou:

“Salve, rei dos Judeus!”

LUCÍLIO voltou e urinou sobre as pernas, peito e rosto de JESUS DE NAZARÉ. Eram onze e quinze da manhã.
Novamente, JESUS foi levado a PILATOS. A multidão ao pé da escadaria, surpreendida com o lamentável aspecto do réu, deixou escapar um murmúrio. JOÃO ZEBEDEU chorou aos pés de JESUS. Um respeitoso silêncio reinou no pátio. Tentando provocar a piedade dos acusadores, PILATOS exclamou:

“Tendes aqui o homem ...! De novo vos declaro que não o acho culpado de crime algum. ...Depois de castigá-lo, quero dar-lhe a liberdade.”;

O sumo sacerdote e seus homens induziram a multidão a gritar:

“Crucifica-o! ...Crucifica-o! ...”.

Decepcionado, PILATOS perguntou o que fez Ele para merecer a condenação? CAIFÁS invocou a lei sagrada, cuspiu no rosto de JESUS e voltou para junto da ralé. PILATOS levou o Mestre para dentro de sua casa e mais uma vez perguntou:

“De onde vens? Quem és na realidade ...? Por que dizes que és filho de Deus ...?”

a resposta foi desonerando-o de responsabilidade pelo que acontecia.
PILATOS voltou ao terraço e disse estar convencido ter o Mestre apenas cometido falta contra a religião e que não podia condená-lo à morte, ao que CAIFÁS lançou-lhe o repto:

“Se soltares este homem, tú não és amigo de CÉSAR ...! Cuidarei por todos os meios que o Imperador tenha conhecimento disso.”.

PILATOS empalideceu, temendo por sua carreira política. Desmoralizado, vazio de um estrito senso de justiça, cedeu. Libertou BARRABÁS. Um soldado trouxe uma bacia cheia de água. O Procurador introduziu suas mãos durante alguns segundos; depois, erguendo os braços exclamou:

“Sou inocente do sangue deste homem! ...”;

enxugou as mãos e dando as costas a CAIFÁS e à multidão, saudou o NAZARENO e ordenou a CIVILIS:

“Ocupai-vos dele.”.

A sorte havia sido lançada, LONGINO (ARSENIUS) foi escolhido responsável pela escolta. Seguiu-se até o Gólgota onde JESUS foi crucificado.
(FONTE - “Operação Cavalo de Tróia”, de J. J. Benitez, editora Mercúrio, ed.1995).
Senhor PRESIDENTE, Senhores DESEMBARGADORES. Perdoem-me pelo fastio que lhes causei; porém, era preciso, para que o meu posicionamento seja entendido, diante da conduta da mídia sensacionalista em querer substituir o Poder Judiciário, e, sem qualquer base jurídica ou pejo estabelece premissas e manipula a consciência popular, a tal ponto que o Senhor Presidente da República, no dia da Pátria, declarou ao País:

“Não terei sossego enquanto os responsáveis por crimes tais como o massacre de Corumbiara ou, mais recentemente, o assassinato do índio pataxó Galdino dos Santos não receberem punição exemplar.” (Correio Braziliense, Punição para ASSASSINOS DE PATAXÓ, ed.08.09.97, pág.05).

declaração que, pela Defesa de MAX ROGÉRIO, foi cognominada de “verdadeira fanfarronice, em afronta ao princípio e independência dos Poderes.”. É certo que nem toda a mídia pauta por este princípio.
Enfrento o recurso. Os recorridos foram denunciados por crime de homicídio triplamente qualificado e corrupção de menor, por haverem no dia 20 de abril de 1997, por volta das 05:00 horas, juntamente com um menor, jogado uma substância inflamável sobre o corpo de um homem, que dormia no abrigo da parada de ônibus, e ateando fogo, provocaram a sua morte.
No juízo de admissibilidade da acusação, a imputação de homicídio doloso foi desclassificada para o crime de lesão corporal seguida de morte (CP, art.129, §3º). Daí o inconformismo e a interposição do Recurso em Sentido Estrito pela Acusação, para que seja reformada a r. decisão e pronunciados os réus, nos termos da denúncia, a fundamento de que a MM Juíza sentenciante se equivocou ao compreender que os acusados não assumiram o risco de produzir o resultado morte, ao jogarem o combustível e atearem fogo na vítima; que ao Tribunal do Júri, diante do princípio in dubio pro societate é que cabe julgar se comporta ou não a desclassificação; e, finalmente, que os jovens agiram com dolo eventual, cientes do resultado que adviria ao jogarem álcool sobre o corpo daquele que dormia e atearem fogo.
Vejamos o que diz na r. sentença hostilizada:

“... não tem razão a douta representante do Ministério Público quando afirma que a desclassificação só poderá ser feita pelo Conselho de Sentença, após os debates em Plenário de Júri. Se por um lado é certo que também durante a sessão de julgamento, quando da votação do questionário, pode ser operada a alteração da classificação penal, por outro não se pode negar vigência ao disposto no artigo 410 do Código de Processo Penal. Os acusados foram denunciados porque, ao praticarem o crime, teriam agido com animus necandi, na forma do dolo eventual. ... Nas alegações finais, o Ministério Público argumentou: “se não tinham os agentes do crime manifesta intenção de causar a morte da vítima, no mínimo assumiram o risco de provocar o resultado lamentavelmente advindo.” ... Os acusados assumiram a responsabilidade pela prática delituosa. ... O único ponto controvertido é o elemento subjetivo. ... Importante saber se os réus quiseram o resultado morte ou assumiram o risco de produzi-lo. ... Toda conduta humana é finalisticamente dirigida a um resultado. Nosso Código Penal é finalista. ... A denúncia veio fundada no dolo eventual. Pretendem os réus a desclassificação do ilícito , seja para o crime de lesões corporais seguidas de morte, previsto no artigo 129, §3º, do Código Penal, para tipo do artigo 121, §3º, ou o do artigo 250, §2º, do mesmo diploma. Desde já afasto a possibilidade de tratar-se somente de crime culposo, ... Assim, restam somente o homicídio praticado com dolo eventual e o crime de lesões corporais seguidas de morte, denominado “preterdoloso”, ... A linha divisória entre ambos é tênue. ... Para Assis Toledo, “A culpa consciente limita-se com o dolo eventual (CP, art.18, I, in fine). A diferença é que na culpa consciente o agente não quer o resultado nem assume deliberadamente o risco de produzi-lo. Apesar de sabê-lo possível, acredita sinceramente poder evitá-lo, o que só não acontece por erro de cálculo, ou por erro na execução. No dolo eventual o agente não só prevê o resultado danoso como também o aceita como uma das alternativas possíveis.” (Princípios Básicos de Direito Penal - Saraiva - 4ª ed.). O saudoso Heleno Fragoso leciona : “Há dolo eventual quando o agente assume o risco de produzir o resultado (CP, art.18, I, in fine). Assumir o risco significa prever o resultado como provável ou possível e aceitar ou consentir sua superveniência. O dolo eventual aproxima-se da culpa consciente e dela se distingui porque nesta o agente, embora prevendo o resultado como possível ou provável, não o aceita, nem consente. Não basta, portanto, a dúvida, ou seja, a incerteza a respeito de certo evento, sem implicação de natureza volitiva. O dolo eventual põe-se na perspectiva da vontade e não da representação, pois esta última pode conduzir também à culpa consciente. Nesse sentido já decidiu o STF (RTJ, 35/282). A rigor, a expressão “assumir o risco”, é imprecisa para distinguir o dolo eventual da culpa consciente e deve ser interpretada em consonância com a teoria do consentimento.” (Lições de Direito Penal - 8ª ed. Forense). Segundo a teoria positiva do conhecimento formulada por Frank, que é útil como critério prático para identificar o dolo eventual, ocorre tal tipo de dolo quando o agente diz a si mesmo: “ seja assim ou de outra maneira, suceda isto ou aquilo, em qualquer caso agirei.”. ...”.

Sua Excelência prossegue citando outras correntes doutrinárias que definem o dolo eventual e conclui:

“... Traçados os balizamentos, tarefa mais árdua é a de pesquisar, no caso concreto, o animus que conduziu os agentes ao crime. Coloca-se o julgador à frente do dilema: “queriam os jovens matar aquele que dormia no abrigo de ônibus ou fazer uma brincadeira cujo resultado foi mais grave do que o desejado? Para obter a difícil resposta sobre o elemento subjetivo, um dos meios é considerar a potencialidade lesiva do meio empregado, dado bastante relevante. O fogo pode matar e foi o que ocorreu, mas sem dúvida não é o que normalmente acontece. ... Por outro lado mais um dado importante evidenciou-se durante a instrução . É que , apesar de terem adquirido dois litros de combustível, logo que chegaram ao locus delicti o conteúdo de um dos vasilhames foi derramado na grama ... A prova técnica por seu turno, também vem ao encontro da versão dos acusados, de que os fósforos foram acesos precipitadamente, enquanto Eron derramava o líquido inflamável sobre a vítima, fazendo-o largar abruptamente o vasilhame. ... As testemunhas que presenciaram a fuga dos réus informaram o estado de ânimo dos mesmos após os fatos: estavam todos afobados. José Maria Gomes asseverou que “quando viu os elementos atravessando correndo a via W3 Sul, eles pareciam estar com muita pressa e desesperados”. ...desespero e afobação não se coadunam com aqueles que agem com animus necandi. ... Por outro lado as declarações prestadas imediatamente após os fatos demonstram que não havia indiferença na ocorrência do resultado. Assim, analisada como um todo, a prova dos autos demonstra a ocorrência do crime preterintencional e não do homicídio. ... O resultado morte, entretanto, que lhes escapou à vontade, a eles só pode ser atribuído pela previsibilidade. ... Como já enfocado, assumir o risco não se confunde , em hipótese alguma, com previsibilidade do resultado. Assumir o risco é mais, é assentir no resultado, é querer ou aceitar a respectiva concretização. É necessário que o agente tenha a vontade e não apenas a consciência de correr o risco. E o “ter a vontade” é elemento subjetivo que está totalmente afastado pela prova dos autos, que demonstrou à saciedade que os acusados pretendiam fazer uma brincadeira selvagem, ... Por mais ignóbil que tenha sido a conduta irresponsável dos acusados, não queriam eles, nem eventualmente, a morte de Galdino Jesus dos Santos. ...Assim, os réus devem ser julgados e punidos unicamente pelo crime cometido que, salvo entendimento diverso do MM Juiz competente, é o de lesões corporais seguidas de morte. Inexiste o animus necandi ..., está afastada a competência do Tribunal do Júri, ...”.

A estes excertos, tenho que merece seja acrescido a justificativa contida no despacho de retratação proferido pela MM Juíza de Direito, em sustentação da sentença impugnada, na parte que copio:

“... Nada veio aos autos que autorize o afastamento da conclusão sobre o elemento subjetivo pois, repita-se, não basta, para que haja dolo eventual, que o agente considere provável que realiza o tipo mediante comportamento nem que esteja consciente da possibilidade concreta de produzir o resultado. Como consta da sentença, “não é exatamente no nível atingido pelas possibilidades de concretização do resultado que se poderá detectar o dolo eventual e sim numa determinada relação de vontade entre esse resultado e o agente”. A linha divisória entre o dolo eventual e a culpa consciente tênue como já consignado, não é a previsibilidade subjetiva nem a previsão objetiva. Situa-se em aceitar o resultado como decorrência da conduta do agente. E o contexto probatório demonstra que os recorridos não anuíram ao resultado mais grave, embora fosse ele previsível. ... Oportuna transcrição tirada do parecer já mencionado da lição de Logoz, citado por Hungria, que põe em evidência a distinção entre dolo eventual e culpa consciente: “ ...A diferença entre essas duas formas de culpabilidade (dolo eventual e culpa consciente) apresenta-se quando se faz a seguinte pergunta: “por que, em um e outro caso, a previsão das conseqüências possíveis não impediu o inculpado de agir?” A esta pergunta uma resposta diferente deve ser dada, segundo haja dolo eventual ou culpa consciente. No primeiro caso, dolo eventual, a importância inibidora ou negativa da representação por resultado foi, no espírito do agente, mais fraca do que o valor positivo que este emprestava à prática da ação. Na alternativa entre duas soluções (desistir da ação ou praticá-la arriscando-se a produzir o evento lesivo), o agente escolheu a segunda. Para ele o evento lesivo foi como um menor dos dois males. Em suma, pode dizer-se que, no caso de dolo eventual foi por egoísmo que o inculpado se decidiu a agir, custasse o que custasse. Ao contrário, no caso de culpa consciente, é por leviandade, antes que por egoísmo que o inculpado age, ainda que tivesse tido consciência do resultado maléfico que seu ato poderia acarretar. Neste caso, com efeito, o valor negativo do resultado possível era, para o agente, mais forte que o valor positivo que atribuía à prática da ação. Se estivesse persuadido de que o resultado sobreviria realmente, teria, sem dúvida, desistido de agir. Não estava, porém, persuadido disso. Calculou mal. Confiou em que o resultado não se produziria, de modo que a eventualidade, inicialmente prevista, não pode influir plenamente no seu espírito. Em conclusão, não agiu por egoísmo, mas por leviandade; não refletiu suficientemente.” (grifos no original). ... Em relação a corrupção do menor, não vislumbro o motivo pelo qual o Ministério Público lançou nas razões de recurso, estarem presentes os pressupostos para que os maiores sejam julgados pelo ilícito. À evidência, na decisão recorrida não foi afastada a imputação. Nada foi sequer ventilado a respeito do tema, pois tão somente foi desclassificado o ilícito da competência do Tribunal do Júri. A matéria escapa ao âmbito do recurso em sentido estrito. ...”.

Data venia, das exegeses dos fatos postas no Recurso em Sentido Estrito, engendradas pelo Órgão do Ministério Público e acompanhadas pela Assistência da Acusação, de que os acusados agiram com dolo eventual, não comportando por isso a desclassificação, daí porque a decisão deve ser reformada para pronunciar os réus nos termos da denúncia, tenho que o decreto desclassificatório é incensurável e, por isso, faço respeitá-lo.
Já nos bancos acadêmicos se aprende, ao estudar a causalidade psíquica (dolo e culpa) e a teoria finalística da ação (reprovabilidade da decisão de cometer o fato e reprovabilidade de não ter evitado o resultado), que entre a ação e o resultado há um duplo vínculo unindo-os: a causalidade material (objetiva) e a causalidade psíquica (subjetiva); que somente existem duas espécies de crime: doloso e culposo, e que são elementos subjetivos que unem a conduta humana ao resultado; que a finalidade é que determina ou não a culpabilidade, daí existir uma reprovabilidade da decisão de cometer o fato e a reprovabilidade de não ter evitado o resultado; que a reprovabilidade não é a previsão mas a previsibilidade, porque ao homem médio é dado prever as conseqüências do seu ato, daí dividir-se a culpa (latu sensu) em dolo e culpa (stricto sensu). O primeiro pode ser direto, quando o agente quer o resultado, ou eventual, quando assume o risco de produzi-lo. Dolo é a vontade (ação voluntária) mais a previsão (representação) de um fato típico. Na culpa há sempre a previsibilidade e pode ser consciente, quando há uma previsão, ou inconsciente, quando há uma ação voluntária mais a previsibilidade; que o dolo eventual é a parte divisória entre o dolo e a culpa e para distingui-los deve-se verificar a posição do agente. Assim, no dolo eventual o agente assume o risco de produzi-lo - há um vício de vontade e na culpa consciente, embora haja uma ação voluntária, o agente não previu o resultado - há um vício de representação; que na culpa inconsciente não ocorre a previsão, mas a previsibilidade de que venha a ocorrer o resultado, caracterizando-se pela negligência, imperícia ou imprudência; que há casos em que a conduta humana se tipifica de maneira complexa e “as hipóteses mais freqüentes de tipificação complexa são as dos chamados crimes preterdolosos, em que uma ação é, a um só tempo, típica de um tipo doloso, em razão da sua finalidade típica, e de um tipo culposo, em face da violação do dever de cuidado. Temos, pois, o dolo no antecedente e a culpa no conseqüente. Nesta categoria temos a lesão corporal seguida de morte (art.129, §3º); o aborto qualificado (art.127); a rixa qualificada (art.137, parágrafo único), etc...” - (EUGENIO RAÚL ZAFFARONI e JOSÉ HENRIQUE PIERANGELI, in Manual de Direito Penal Brasileiro - Parte Geral, ed. Revista dos Tribunais, ed.1997), e por aí segue-se o aprendizado.
Por que agora quer seja modificado todo esse ensinamento? Não é possível; aliás, a versão dos Recorridos de que visavam uma brincadeira, qual seja, a de assustar a vítima, que dormia em um abrigo de ônibus, acordando-a com fogo no pano que cobria as suas pernas, encontra sustentação na denúncia, que fez registrar:

“Apurou-se, com o incluso inquérito, que os denunciados, após terem-se divertido durante toda a noite, já quase ao amanhecer, procurando dar continuidade à diversão, ao passarem pelo banco da parada de ônibus onde dormia a vítima, supondo ser ela mendigo, deliberaram sobre a idéia de dar continuidade à diversão, (grifei) fazendo do pretenso mendigo uma tocha humana.”.

Como se vê, a intenção dos Recorridos era a de assustar a vítima, não queriam matá-la, mas divertirem-se, porém, o resultado foi mais longe do que o esperado, eis que produziu a morte, por força das queimaduras, resultado que não previram. Não queriam a morte de GALDINO, não anuíram e tampouco aceitaram-na como uma possibilidade, e, de modo algum agiram prevendo esse resultado, a conferir a possibilidade de se admitir que assumiram o risco de provocar o resultado advindo, eis que estavam movidos pelo ânimo de brincar e não o de matar.
Alhures, tive oportunidade de manifestar que o entendimento generalizado é o de que queimadura não mata, tanto que dezena de milhares de queimados são vistos, mostrando as cicatrizes que o fogo deixou em seus corpos; contudo, vivos.
Afirmar que, ao Tribunal do Júri é que cabe julgar se comporta ou não a desclassificação, evidencia uma heresia sem precedentes, uma vez que ao produzir o decreto de pronúncia deve o magistrado analisar as provas que são levadas com a denúncia e produzidas no juízo de admissibilidade, para formar o seu convencimento e decidir pela pronúncia, nos termos da denúncia, ou pela impronúncia, pela absolvição sumária, pelo afastamento de qualificadoras e porque não, pela desclassificação, se discorda da classificação contida na denúncia, conforme previsto no artigo 410 do CPP, vez que não está adstrito a essa classificação, isto porque a decisão de pronúncia não é uma simples homologação da acusação posta na peça acusatória.
Ademais, a desclassificação na primeira fase procedimental, não afeta a soberania do Júri e nem atinge o princípio in dubio pro societate, posto que ainda não se faz presente a garantia constitucional da soberania dos veredictos, a qual só existe após a decisão do Júri, desde que não seja teratológica.
Assim, também por este fundamento, tenho que o recurso não merece provimento.
Penso que, agora, resta explicado o porquê da fastidiosa narrativa que fiz da condenação de CRISTO, acossada pelos Sinedristas e admitida pela fraqueza com que PÔNCIO PILATOS, malgrado tivesse a certeza da inocência do réu e não o considerasse culpado, cedeu aos gritos do populacho de “crucifica-o! crucifica-o!”, limitando-se a lavar as mãos, como forma de inocentar-se do sangue a ser derramado.
As pressões da mídia e da opinião pública, por ela manipulada, são intensas, porém, não lograram fazer com que viesse eu a entender tratar-se de um homicídio doloso, daí porque afirmo: Não é curvando-se às pressões que o Poder Judiciário se fará respeitado, protegido e acreditado; mas, sim, com decisões justas e legais, como neste caso, desclassificando a imputação de homicídio doloso, conforme posto na denúncia, para o crime de lesões corporais seguidas de morte (CP, art.129, §3º), como o fez a doutora SANDRA DE SANTIS, MM Presidenta do Tribunal do Júri.
Resta o pedido de relaxamento da prisão, feito por MAX ROGÉRIO ALVES, conforme posto nas suas contra-razões. Quanto a igual pleito, na r. sentença de pronúncia a MM Juíza assinalou:

“...Por último cumpre examinar se deve ou não persistir a custódia cautelar dos acusados, diante da desclassificação do ilícito. Em princípio, salvo entendimento diverso do MM Juiz a quem couber o julgamento do feito, os réus deverão responder pelo crime previsto no artigo 129, §3º do Código Penal, verbis: art.129 - (omissis) §3º- se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo. Pena - reclusão, de quatro a doze anos. A nova capitulação que se delineia não é afiançável e, como sabido, o fato de os réus serem primários e de bons antecedentes não pode, por si só, desautorizar a prisão fundamentadamente decretada. Por outro lado, persistem, ao menos parcialmente, os motivos que levaram à segregação cautelar. Acrescento que a 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça, por maioria, negou habeas corpus impetrado em favor de Max Rogério Alves. Assim, não vislumbrando qualquer maltrato a preceito constitucional que justifique antecipação da decisão que o juiz da causa venha a tomar, deixo de examinar o pedido de liberdade provisória para não subtrair do Juízo competente a direção do processo. ...”.

De igual modo adoto essa decisão. Acrescento, que na sede deste recurso não comporta apreciar o pedido de relaxamento da prisão porquanto foi ele interposto pela Acusação e não pela Defesa e, ainda, porque, no processo penal, não é possível admitir o pedido contraposto, como soe acontece no processo civil. No Juízo a que couber o julgamento dos acusados é que deverá formular pedido dessa natureza.
ISTO POSTO, nego provimento ao recurso e mantenho a capitulação posta no decreto desclassificatório, bem como aquela referente a infração ao que se dispõe no artigo 1º, da Lei nº 2.252/54, contida na denúncia, porque, na sede deste julgamento, não comporta o exame da sua procedência ou não.
É como voto.


O Senhor Desembargador GETÚLIO PINHEIRO – Presidente-Vogal

Durante mais de quinze anos como juiz de vara criminal, tive a oportunidade, por centenas de vezes, de proferir decisões de pronúncia, de impronúncia, de desclassificação e de absolvição sumária. Procurei, sempre, quando convencido da existência de crime doloso contra a vida, resguardar a competência constitucional do tribunal do júri para o exame do meritum causae.
O tribunal do júri tem seus inimigos raivosos, em grande número, mas conta, também, com defensores intransigentes. Incluo-me no pequeno rol destes últimos. No decurso de mais de seis anos como presidente dos tribunais do júri da capital do então Território Federal de Roraima e de Brasília, procurei seguir a lição de Magarinos Torres, que na década de trinta já alertava, em repto aos que preconizavam o fim dessa instituição, para a necessidade de seu aperfeiçoamento, a cargo, sobretudo, de seus presidentes.
Defendi, e continuo a defender, não só a manutenção da instituição do júri, mas a ampliação de sua competência para o julgamento de outros delitos além dos dolosos contra a vida. Jamais abdiquei, todavia, da prerrogativa - mais um dever - de decidir sobre a admissibilidade da acusação formulada em processos instaurados por crimes dolosos contra a vida e outros a eles conexos.
A competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida está assegurada ao tribunal do júri pela Constituição Federal (inciso XXXVIII do art. 5º), com as exceções nela previstas.
Induvidosa sua competência, também, à luz do que dispõe o § 1º do art. 74 do Código de Processo Penal. Cabe ao juiz, no entanto, como prevê o art. 408 do mesmo código, e não à acusação, mandar o réu a julgamento se ficar convencido da existência do crime e de indícios de que é ele seu autor. Da existência de crime doloso, bem entendido, incluídos os conexos da competência do juízo singular, uma vez que cabe a ele, à vista da prova, essa decisão.
O princípio in dubio pro societate só tem guarida se a prova, concernente à autoria e às circunstâncias que excluam o crime ou que possam isentar de pena o réu, lhe é desfavorável. Uma vez que o tribunal do júri é competente para o julgamento de crimes dolosos contra a vida, inconcebível possa o juiz delegar aos jurados tarefa que lhe compete, ou seja, decidir sobre a existência do dolo, integrante do tipo, posto que possam eles, no âmbito de sua soberania, afastá-lo de pronto, pois não vinculados à provisoriedade da capitulação contida na pronúncia.
A r. decisão recorrida dispôs de modo contrário ao postulado pela acusação. Fê-lo, todavia, sem ferir os citados dispositivos do Código de Processo Penal, pois como está na parte inicial do art. 410 desse diploma legal,

“Quando o juiz se convencer, em discordância com a denúncia ou queixa, da existência de crime diverso dos referidos no art. 74, § 1º, e não for o competente para julgá-lo, remeterá o processo ao juiz que o seja. (...)”

Abolido o júri da pronúncia, no Segundo Império, sempre coube à justiça togada decidir sobre a admissibilidade da acusação. E assim continua após o advento da Constituição de 1988, como observa Hermínio Marques Porto:

“À destinação constitucional do tribunal do júri não é de ser acrescida força absorvente e retroagindo à etapa do encerramento do judicium accusationis, com efeito de diminuir o exercício, pelo Juiz singular, de sua atividade judicativa. No momento de opção à pronúncia, à impronúncia, à desclassificação ou à absolvição sumária, o Juiz singular encontra cumpridas fases procedimentais satisfatórias para o entendimento de ter sido realizada uma instrução criminal completa, tanto que pode encerrar o processo com uma sentença de mérito (a sentença de absolvição sumária), tendo, pois, no tratado momento, ele e as partes, tal como no encerramento de procedimentos não escalonados relacionados com ações penais condenatórias, tido amplas possibilidades de verificação do tema acusatório; sendo assim, porque não condicionado a qualquer princípio que imponha excepcional e restritiva atividade de pesquisa das provas, o Juiz singular encontra a liberada possibilidade de absolver ou impronunciar, de pronunciar ou de desclassificar”. (Júri, 5ª ed., págs. 34/35 - Ed. Rev. dos Tribunais).

Ante o exposto, não resta dúvida de que a decisão desclassificatória do delito não afronta os dispositivos citados; se encontra apoio nas provas, é matéria que já foi analisada pelo eminente relator, passando eu a fazê-lo a partir de agora.
A r. decisão recorrida afastou a competência do tribunal do júri com o fundamento de que os réus não quiseram o resultado morte nem assumiram o risco de o produzir. Entre a tênue linha que divide o dolo da culpa consciente, optou por esta última e acenou com a probabilidade de condenação dos réus, no juízo singular, por lesão corporal seguida de morte. Ocorre, contudo, que a pena cominada a este delito varia de quatro a doze anos, ao passo que a do homicídio qualificado vai de doze a trinta.
Não seria exagero dizer que verdadeira comoção causou no país essa decisão, pois os meios de comunicação haviam transmitido a certeza da pronúncia dos réus e da condenação de todos, pelo tribunal do júri, à pena mínima de doze anos de reclusão, podendo chegar a trinta. Não informaram, mas procuraram formar a opinião pública para o resultado do julgamento.
Ousou a eminente magistrada prolatora da decisão deles discordar. Foi o suficiente para que a atassem ao pelourinho, submetendo-a a odioso julgamento público sem o direito de defesa. A decisão da Dra Sandra De Santis está embasada nas provas coligidas nos autos. Louvou-se ela nos interrogatórios dos réus, na polícia e em juízo, assim como na prova técnica, para formar sua convicção de que os réus não agiram com dolo.
Ao afastar o dolo que teria animado os réus, não se limitou a eminente juíza a perquirir a mente de cada qual, mas apreciou, também, as circunstâncias do fato.
Presos em flagrante e conduzidos à delegacia, contaram, sem a assistência de advogado, o que voltaram a repetir, com coerência, em juízo. Pelo que se depreende dos termos dos interrogatórios, não tinham eles consciência do resultado que adviria daquela conduta; não o previram, não o admitiram nem aceitaram o risco de produzi-lo. Agiram, segundo afirmaram, com o só propósito de assustar a vítima. Indubitável que sabiam, pois fruto da experiência humana, que a vítima sofreria queimaduras e, no entanto, não retrocederam. Previsível que ela sofreria lesões corporais. Não afirmaram, contudo, que previram, admitiram e aceitaram o resultado morte. Nenhuma testemunha veio a juízo infirmar essas declarações, o que, aliás, seria despiciendo, pois não poderia penetrar no consciente deles; muito menos o julgador lastrear-se exclusivamente em suas palavras. Corroboram-nas, por outro lado, a prova técnica, conforme consignado na sentença. Segundo eles, teriam utilizado apenas o álcool contido em um dos recipientes. Encontrou-o a perícia sob o banco do ponto de ônibus onde estava a vítima deitada , semi-queimado, o que confirma a versão de que quando estavam a verter seu conteúdo sobre ela um deles antecipou-se e acendeu o fósforo que ateou fogo ao combustível, obrigando a quem o sustentava a largá-lo, precipitando o restante do conteúdo e, conseqüentemente, aumentando o poder de combustão.
Ora, se dois litros de álcool foram adquiridos e somente um utilizado, em sua totalidade, por acidente, correta a decisão que afastou a competência do tribunal do júri por ausência de dolo, pois se a intenção fosse a de matar, teriam usado todo o combustível adquirido. Está a corroborar a versão dos réus, ainda, as declarações do inimputável.
Por tais fundamentos, nego provimento ao recurso, acompanhando, assim, o eminente relator.


A Senhora Desembargadora APARECIDA FERNANDES – Vogal

Senhor Presidente, inicialmente quero manifestar a minha simpatia à nação indígena aqui representada. Quero também prestar minha solidariedade à família de Galdino dos Santos, enlutada em razão de sua chocante morte.
Senhor Presidente, a matéria já foi suficientemente debatida e estou com a egrégia Turma. Desejo, no entanto, ressaltar que o fato de haver a MM Juíza, Dra Sandra De Santis, desclassificado o crime de homicídio, qualificado por três circunstâncias, para o de lesão corporal seguida de morte, não implica impunidade como, erroneamente, vem sendo levada a opinião pública a crer. Com efeito, os recorridos haverão de sofrer punição, sim, mas pelo crime que efetivamente cometeram, que foi bárbaro, e merece severa reprovação, mas que não foi o crime de homicídio qualificado, vez que ausente, por tudo o que se vê nos autos, o dolo de produzir o resultado morte, sequer na modalidade eventual.
Pelo exposto, nego provimento ao recurso para manter na íntegra a respeitável decisão a quo.
É o meu voto.


DECISÃO

A Turma, por unanimidade de votos, conheceu do recurso, rejeitou a preliminar e lhe negou provimento. Unânime.

Caso Michele

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS

TRIBUNAL DO JÚRI DA CIRCUNSCRIÇÃO JUDICIÁRIA ESPECIAL DE BRASÍLIA-DF



Processo n° 1999.01.1.070156-5
Réu: JOSÉ PEDRO DA SILVA
Vítima: MICHELLE DE OLIVEIRA BARBOSA


SENTENÇA, vistos etc.,

O ministério Público ofereceu denúncia contra o réu acima identificado, dando-o como incurso nas penas de um crime de homicídio consumado e duplamente qualificado pela torpeza e pela dissimulação, além do crime de ocultação de cadáver (art.121, § 2°, incisos I e IV, e art.211, ambos do CP), por haver, mediante dissimulação, convencido a vítima em epígrafe a acompanhá-lo ao interior do seu veículo, “a lugar ainda não determinado, onde ceifou-lhe a vida”. Segundo a peça acusatória, a motivação do crime foi torpe, consistente na “insensibilidade moral do denunciado, que eliminou a existência da vítima para evitar futuro pedido de pensão alimentícia e problemas em seu casamento, uma vez que a vítima alegava que estava grávida e reivindicava que assumisse o relacionamento adulterino que mantinham”. Alega a douta Promotora de Justiça signatária da denúncia, Dra. Sandra Gomes Bernardes, que a “a morte da vítima e a ocultação do seu cadáver, se evidencia por meio do laudo de exame de DNA de fls.388/394 e do laudo de exame em pêlos de fls.407/409”.

A denúncia, baseada no inquérito policial que a acompanha, foi recebida no dia 26 de abril de 1999, dando início ao processo, o qual ostenta as seguintes peças que reputo de maior relevo: portaria (fls.09/10); autos de apresentação e apreensão (fls.30, 46, 63, 155, 179, 346, 350, 352 e 410); laudo de exame em veículo (fls.94/95); laudo de exames em armas de fogo (fls.97/101); termo de entrega (fl.158); autos de reconhecimento de pessoa (fls.239/240); laudo de reconstituição (fls.267/284, complementado às fls.458/459); auto de restituição (fl.291, 394); laudo de exame de DNA (fls.403/409); laudo referente à atendimento médico da vítima ao longo da sua vida (fls.415 e 617); laudo de exame grafoscópico (fls.417/421); laudo de exame em pêlos (fls.422/424); boletim de vida pregressa (fl.483); relatório final da Autoridade Policial (fls.488/501); folha de antecedentes (fl.522); laudo de exame de DNA (fls.586/589) laudo de exame de DNA (fls.596/599); e complementação de laudo de DNA(fls.758/765).

Regularmente citado, o réu foi interrogado às fls.577/583, ocasião em que negou peremptoriamente a prática dos crimes narrados na denúncia. Negou, inclusive, a existência de qualquer relacionamento amoroso entre ele e a vítima.

A defesa prévia foi oferecida às fls.591/592, sem incursões no mérito.

O sumário transcorreu de acordo com as atas de audiências de fls.668/669 e 710, com a oitiva de todas as testemunhas arroladas pelas partes ( confira-se às fls.670/697 e 711/715).

Em alegações finais o Ministério Público requereu a pronúncia nos termos da denúncia (fls.719/750); a Assistência de Acusação corroborou as alegações ministeriais (fls.753/755); e a defesa, por sua vez, pleiteou a impronúncia (fls.766/795).

Apesar da proibição legal quanto a juntada de documentos na fase de alegações finais, as partes os juntaram e esta magistrada permitiu, porque os mesmos ora referem-se a acórdãos já publicados (jurisprudência), em tese, de conhecimento público, ora são documentos já pertencentes aos autos.

Foi expedido mandado de prisão preventiva contra o acusado, mas posteriormente a ordem foi revogada através de Ordem de habeas corpus impetrada perante o Tribunal de Justiça, situação fática que permanece até a presente data (fls.503/517 e 558/565).

A defesa impetrou nova Ordem de habeas corpus, desta feita visando o trancamento da presente ação penal, sem, contudo, lograr êxito em seu intento (fls.530/550 e 641/647).

O presente feito tramitou inicialmente perante o Juízo do Tribunal do Júri da Circunscrição Judiciária de Ceilândia, porém veio redistribuído para este Juízo por força da decisão exarada às fls.635/638.

Existem dois apensos contendo extratos telefônicos de linha telefônica pertencente ao acusado, oriundos de diligências deferidas no curso do inquérito/processo.

Relatei.

DECIDO.

Narram os autos que a adolescente MICHELLE DE OLIVEIRA BARBOSA foi vista pela última vez no dia 10 de julho de 1998, adentrando um veículo GM/ÔMEGA, de cor escura, acompanhada de um homem bem vestido e de cabelo grisalho.

Segundo sustenta o Ministério Público, o veículo seria de JOSÉ PEDRO e o “homem grisalho” ele próprio. Para o Parquet, acusado e vítima mantinham relacionamento amoroso e adulterino (o mesmo era casado). Desta relação, resultou uma provável gravidez da vítima e o interesse do réu em eliminá-la para evitar futuro pedido de pensão alimentícia e problemas em seu casamento.

Já o acusado nega a existência de qualquer relacionamento íntimo entre ele e MICHELLE, bem como nega que a tenha matado. O corpo da desditosa vítima está desaparecido desde a data supramencionada, razão pela qual o ilustre causídico constituído aferra-se à este dado para pleitear a impronúncia, sob o argumento de que não há prova da materialidade do crime, nem indícios de autoria.

Em suma, enquanto a acusação pretende que o réu seja pronunciado, sua respectiva defesa pretende o inverso, ou seja, que ele seja impronunciado.

Tenho para mim que a razão está do lado da acusação, porque após compulsar exaustivamente os autos, me convenci, inequivocamente, da existência do crime que vitimou MICHELLE, assim como me convenci dos indícios que apontam na direção do acusado como sendo seu autor, conforme adiante explanarei.

Antes, porém, de adentrar na matéria fática propriamente dita, cumpre-me fazer algumas digressões acerca das interpretações doutrinárias e jurisprudenciais dadas aos artigos 408 e 158 da Lei Adjetiva Penal.

Com efeito, o legislador exigiu, através do disposto no caput do artigo 408 do Código de Processo Penal, que para a decretação da pronúncia basta “o Juiz se convencer da existência do crime e de indícios de que o réu seja o seu autor”. (destaquei).

Ao interpretar esse comando normativo, extraio que o legislador não previu a existência de prova cabal da materialidade à época da pronúncia, mas, apenas, que o Juiz (a) dela se convença, sendo necessário, ainda, que hajam indícios suficientes da autoria, porquanto é ela mero Juízo de admissibilidade que não encerra decisão condenatória e onde vige o brocardo in dubio pro societatis.

Não estou só na minha interpretação, razão pela qual, nesse sentido, trago a colação o entendimento esposado pelo festejado mestre MIRABETE, verbis:

“Para que o Juiz profira uma sentença de pronúncia, é necessário, em primeiro lugar, que esteja convencido “da existência do crime”. Não se exige, portanto, prova incontroversa da existência do crime, mas de que o juiz se convença da sua materialidade. Por isso já se tem decidido que não exclui a possibilidade de pronúncia eventual deficiência do laudo pericial ou a existência de mero corpo de delito indireto, embora se exija que o Juiz esteja convencido da existência do fato delituoso. É necessário, também, que existam “indícios suficiente da autoria”, ou seja, elementos probatórios que indiquem a probabilidade de ter o acusado praticado o crime”. (in Código de Processo Penal Interpretado - destaquei).

A jurisprudência colhida de Nossos Tribunais volta-se, também, para o mesmo entendimento, consoante se vê, dentre outras, as seguintes Ementas:

RTJ 63/476: “Nos termos do que decidiu o STF, não é necessária a prova incontroversa da existência do crime para que o réu seja pronunciado. Basta, para tanto, que o juiz se convença daquela existência. Havendo dúvida, pronuncia-se (RT 523/377, 503/328, 522/361, 518/393, 500/302 e 584/319). Destaquei.

TJSP: “ A sentença de pronúncia, como decisão sobre a admissibilidade da acusação constitui juízo fundado de suspeita, não o juízo de certeza que se exige para a condenação” (RT 583/352). No mesmo sentido, TJSP: RT 686/321; TJBA: RT 583/422; TJRJ: RT 583/422. Destaquei.

É bem verdade que o crime de homicídio é daqueles que deixam vestígios. Não é menos verdade que nesses casos o exame de corpo de delito direto, ou, noutras palavras, o conjunto dos elementos materiais do fato imputado, faz-se absolutamente imprescindível, sob pena de nulidade insanável. Pois bem.

Na hipótese versada nos autos temos, como afirmei em linhas volvidas, um crime de homicídio onde o corpo da vítima não foi encontrado, portanto, impossível tornou-se a elaboração do exame de corpo de delito direto. Afirmar, porém, como pretende a douta e ilustrada defesa que, à partir dessa constatação, o crime não existiu e, por isso, os autos devem ser arquivados através da impronúncia, eqüivale, a meu sentir, ignorar os princípios da liberdade probatória, do livre convencimento do Juiz (a) e, principalmente, da busca da verdade real.

A robustecer meu entendimento, ilustro a presente decisão com a afirmação do Eminente Ministro LUIZ VICENTE CERNICCHIARO, segundo a qual “constata-se, então, esta curiosa situação. Falha do condutor do inquérito ou do processo (sem considerar eventual malícia) deixa de materializar aqueles indícios. Interpretação literal dos dispositivos mencionados leva, inexoravelmente, à conclusão de não serem considerados os outros meios de prova, embora idôneos, claros, insofismáveis, esclarecedores do fato. Tem-se, então, curiosa e perplexa conclusão: o fetichismo dos meios de prova supera o próprio valor dos meios probatórios, reduzindo a instrução criminal a um jogo formal de dados, quando não a um jogo bem sucedido de interesses escusos” (in Livro de Estudos Jurídicos, Rio de Janeiro: Instituto de Estudos Jurídicos, 5/207-217 – destaquei).

A respeito do cabimento da realização de exame de corpo de delito indireto quando torna-se impossível a realização do exame direto em face do desaparecimento do corpo da vítima, existe um caso concreto na literatura forense, ocorrido nos idos de 1964, mas bastante conhecido e citado na atualidade, relativo ao julgamento de LEOPOLDO HEITOR, acusado de matar e ocultar o corpo da vítima DANA DE TEFFÉ. Aquele acusado impetrou diversos habeas corpus visando sua soltura e/ou trancamento da respectiva ação penal, contudo, todos foram denegados, sendo certo que um deles, julgado pelo Pretório Excelso, teve como relator o Eminente Ministro Victor Nunes, de cujo voto extraio o seguinte trecho, litteris:

... Alega-se ainda que a materialidade não se poderia comprovar pela falta de corpo-de-delito, mas não é isso que acontece, pois o Código de Processo Penal, prescreve em seu art.167, que esta prova pode ser feita por intermédio de testemunhas, isto é, indiretamente, e os tratadistas, como Espínola e outros, entendem ainda que para tanto basta apenas o depoimento de uma testemunha. Ora, o Excelso Pretório já se pronunciou também a êsse respeito, quando do julgamento de um dos “habeas corpus” impetrado pelo acusado Leopoldo Heitor, concluindo o Ministro Gonçalves de Oliveira por que, se assim fôsse, muito fácil seria a qualquer criminosos eliminar a sua vítima, ocultar seu cadáver e fugir dêsse modo à sanção penal ...” (HC 40.540/RJ DJ 13.08.64, p.02825 - destaquei).

Em época mais recente, outro caso bastante semelhante ao de DANA DE TEFFÉ e ao de MICHELLE, ocorreu na Comarca de Uberlândia-MG, tendo como acusado DACI ANTONIO PORTE e como sua vítima MARIA DENISE LAFETÁ SARAIVA. Este fato foi julgado pelo Tribunal do Júri daquela Comarca mineira, ocasião em que DACI foi condenado a pena de 13 anos de reclusão.

Em 1988 a jovem DENISE LAFETÁ desapareceu deixando uma filha em tenra idade. Todos passaram a procurá-la: familiares, amigos e autoridades. Instaurou-se o competente inquérito policial, através do qual DACI ANTONIO, inicialmente seu amante (no início do relacionamento ele era casado) e, somente depois de algum tempo, tornou-se seu companheiro e pai da sua filha, foi indiciado e denunciado pela prática de homicídio qualificado pela futilidade, além do crime de ocultação de cadáver.

Finda a fase do iudicium acusationis, DACI foi impronunciado. Dessa decisão, todavia, recorreu o Ministério Público para o Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Os Desembargadores da primeira Câmara Criminal, modificaram-na para o fim de pronunciar DACI e submetê-lo a julgamento perante o E. Conselho de Sentença. A decisão do Tribunal mineiro sofreu desafio através de habeas corpus impetrado junto a Suprema Corte que a manteve na íntegra, consoante se vê do acórdão juntado pelo douto Promotor por ocasião das suas bem lançadas alegações finais, cuja Ementa, da lavra do Eminente Ministro CARLOS VELLOSO, é a seguinte:

“EMENTA: PENAL. PROCESSUAL PENAL. “HABEAS CORPUS”. SENTENÇA DE PRONÚNCIA. TRIBUNAL DO JÚRI. CORPO DE DELITO: AUSÊNCIA. INDÍCIOS VEEMENTES DA EXISTÊNCIA DO CRIME E DA AUTORIA. CPP, art.408.
I. - Por ser a pronúncia mero juízo de admissibilidade da acusação, não é necessária prova incontroversa do crime, para que o réu seja pronunciado. As dúvidas quanto à certeza do crime e da autoria deverão ser dirimidas durante o julgamento pelo Tribunal do Júri. Precedentes do STF.
II. – H.C. indeferido”.
III. (HC n° 73522-3 Minas Gerais DJ 26/04/96 – destaquei).

Destarte, o réu DACI foi julgado e condenado pelo Júri Popular da Comarca de Uberlândia, oportunidade em que o Juiz presidente aplicou-lhe pena de 13 (treze) anos de reclusão. Houve apelação, posteriormente improvida à unanimidade.

O Dr° TIBÚCIO DÉLBIS, à época Promotor de Justiça titular da Promotoria do Júri da Comarca de Uberlândia e que atuou em todas as instâncias pretorianas por onde o processo tramitou, escreveu um livro, através do qual defendeu a tese da substituição do exame direto do corpo de delito pelos demais meios idôneos de prova. No bojo da obra citada, denominada “HOMICÍDIO SEM CADÁVER”, à fl.112 ele asseverou, verbis:

“O réu, DAP, surpreendentemente apresentou-se para cumprir sua pena de prisão de 13 anos de reclusão, tendo sido recolhido à Cadeia Pública da Comarca de Uberlândia, e assim deu início à execução da pena, inicialmente em regime fechado”.

Tenho para mim que outra não poderia ter sido a decisão do Tribunal de Minas Gerais ou do próprio Supremo Tribunal Federal no caso DENISE LAFETÁ porque, apesar do espanto inicial dos mais céticos, que vêm na ausência do exame de corpo de delito direto um óbice para a pronúncia e, até mesmo, uma ameaça para os ditames de um Estado Democrático de Direito, creio que temos que interpretar os artigos 408 e 158 do Código de Processo Penal, de acordo com nossa realidade atual, com os avanços tecnológicos, através dos quais, se realizam exames antes inimagináveis, cujos resultados bastam, por si só, para deslindar uma situação fática aparentemente insolúvel, não se descurando, ainda, do espírito da própria Lei Adjetiva em vigor, a qual traz em sua exposição de motivos, da lavra do saudoso mestre FRANCISCO CAMPOS, ensinamentos acerca da interpretação das provas, de onde extraio o seguinte trecho:

“... O projeto abandonou radicalmente o sistema chamado da certeza legal (...) nem é prefixada uma hierarquia de provas (...) todas as provas são relativas: nenhuma delas terá ex vi legis valor decisivo ou necessariamente maior prestígio que outra (...) o Juiz criminal é, assim, restituído à sua própria consciência...” (destaquei).

Ainda nesse mesmo enfoque invoco a lição do eterno e sempre atual mestre dos mestres NELSON HUNGRIA:

“... tal critério é demasiadamente rigoroso, e poderia, na sua irrestrição, conduzir à impunidade de manifestos autores de homicídio ...” (Comentários ao Código Penal Rio de Janeiro: forense, 1958, v. V, p. 64/65 - destaquei).

Através da lição trazida a baila, o mestre HUNGRIA estava rebatendo a afirmação de CARRARA que dizia que não se podia afirmar a existência de crime de homicídio, enquanto não tivesse sido encontrado o corpo da vítima.

Para ilustrar seu entendimento e afastar o ceticismo de CARRARA, HUNGRIA passou, em seguida, a citar o caso já citado por IRURETA GOYENA, relativo a dois indivíduos que lutavam renhidamente numa barca do Rio Uruguai, tendo um deles atirado o outro à correnteza, sendo certo que corpo nunca mais apareceu, pois, baldadas foram as diligências que visaram encontrá-lo. A esse respeito, ele asseverou:

“... Ora, se não obstante a falta do cadáver, as circunstâncias eram de molde a excluir outra hipótese que não fosse a morte da vítima, seria intolerável deixar-se de reconhecer, em tal caso, o crime de homicídio. Faltava a certeza física, mas havia a absoluta certeza moral da existência do homicídio. Conforme justamente observa Goyena, não se deve confundir o corpo de delito com o corpo da vitima, e para a comprovação do primeiro basta a certeza moral sobre a ocorrência do evento constitutivo do crime...” (destaquei).

Noutro giro, na minha incessante busca pelo aprendizado e especificamente quando buscava subsídios para deslindar a vexata quaestio instalada nos presentes autos, deparei-me com um julgado do Superior Tribunal de Justiça, através do qual o eminente Ministro CERNICHIARO participou na qualidade de relator, cujo objeto versava sobre a ausência de exame de corpo de delito direto e, naquela ocasião, ele assim ementou:

“Prova – corpo de delito – elementos. O corpo de delito é o conjunto dos elementos sensíveis do fato criminoso. Diz-se direto quando reúne elementos materiais do fato imputado; indireto, se, por qualquer meio, evidencia a existência do acontecimento delituosos. A constituição admite as provas que não sejam proibidas por lei. Restou, assim, afetada a cláusula final do art.158 do CPP, ou seja, a confissão não ser idônea para concorrer para o exame de corpo de delito. No processo moderno, não há hierarquia de provas, que lícito for, idôneo será para projetar a verdade real” ( STJ, Ac. Unân. Da 6ª T.; publ. Em 15/3/93 – DC 1.394-2/RN – Rel. Min. Vicente Cernicchiaro, in COAD 61.641 – destaquei).
Encontrei outros julgados que seguem a mesma linha de raciocínio, aliás, a meu ver, tratam-se de interpretações jurisprudenciais absolutamente adequadas ao direito moderno e consentâneas ao nosso Ordenamento Jurídico, vejamos:

“Não obstante seja considerado indispensável o corpo de delito, quando se trate de lesão, que, por sua natureza, deva deixar vestígios, nem só por isso se poderá concluir pela nulidade do processo, pois, em tal hipótese, restaria o corpo de delito indireto, que pode ser obtido através da prova testemunhal” (TJSP: RF 100/360 - destaquei).

“Perícia – Exame de corpo de delito impossibilidade de realização ante o desaparecimento dos vestígios – Possibilidade, em linha supletiva, de comprovação do crime investigado por prova testemunhal – aplicação do art.167 do CPP” (TACRIM/SP: RT 673/336 – destaquei).

Invoco novamente o entendimento doutrinário a respeito do mesmo assunto, trazendo, por oportuno, à colação, o pensamento de HENRIQUE FERRI, verbis:

“... Num século de civilização aumentam paralelamente a sagacidade e as manhas dos criminosos; a ponto de para os descobrir e poder acusar, já não bastar apenas o senso comum, que, no entanto, não é tão comum como certas pessoas julgam, mas ser necessária toda a lógica, que, por isso, se tornou uma faculdade habitual de exercício judiciário (...) Esses crimes são tecnicamente concebidos, tecnicamente preparados e tecnicamente ocultados. Porque o mais importante destes crimes é a sua ocultação posterior, não só para evitar a condenação, o que é preocupação de todos os criminosos, mas, sobretudo, para assegurar o gozo do produto do crime ...” (Discurso de acusação, p.167/168 – destaquei).

MITTERMAIER, a seu turno, in Tratado da prova em Matéria Criminal, p.24, questionando o entendimento de CARRARA, assim como já o fizera HUNGRIA, afirmou o seguinte:

“... que a certeza exigida como coisa essencial em matérias criminais não se pode encerrar em regras científicas ou legais, mas repousa no senso íntimo e inato que guia o homem nos atos importantes da vida (...) é um erro acreditar que a evidência material e a única fonte de certeza (...) a sentença criminal não é resultado de cálculo aritmético...” (destaquei).

Cita, em seguida, o referido mestre, o exemplo de uma moça que teria praticado um fato criminoso, sem testemunhas, e que vem vazado nos seguintes termos:

“... apresenta-se em Juízo e declara que, há oito anos, matou às ocultas uma criança que havia dado à luz; que desde então a sua consciência a traz inquieta; que, há seis meses, estando gravemente enferma, fez promessa de declarar seu crime; que um padre, a quem se confessara, a fortificara nessa resolução. Todas estas circunstâncias atestam suficientemente que a acusada obra com liberdade de espírito ...” (destaquei).

A conclusão de MITTERMAIER para este fato foi o de que a ausência do corpo da pequenina vítima, não é suficiente, por si só, para impedir a inequívoca conclusão de que a mesma morreu, segundo narrado por sua arrependida genitora, nem é causa bastante para anular o processo desencadeado à partir da aludida confissão.

Voltando aos autos para o caso posto em apreciação e atenta a todos os ensinamentos doutrinários e jurisprudenciais exaustivamente expostos, dos quais comungo e que entendo encaixar-se perfeitamente na hipótese vertente, passo a destacar todas as provas e indícios colhidos no bojo dos mesmos, os quais, convenceram-me inequivocamente, a um só tempo, da existência do crime perpetrado contra MICHELLE e dos indícios de que JOSÉ PEDRO DA SILVA foi seu autor, senão vejamos:

As ilustres peritas signatárias do laudo de exame de DNA acostado às fls.403/409, complementado às fls.758/765, Dras. Karla Angélica e Ana Paula, atendendo à solicitação da Delegacia de Homicídios, examinaram o veículo de propriedade do acusado, GM/Omega, placa JEF 4049-DF e no seu interior encontraram diversos fios de cabelo, bem como lograram localizar no porta malas “impregnações de substâncias de tonalidade pardo avermelhada, localizadas principalmente na parte mais próxima à fechadura”, além de “pêlos aderidos ao tapete central”. (destaquei).

Referido material genético, ou, noutras palavras técnicas segundo fizeram consignar as duas “experts”, “as amostras biológicas presentes em vestígios recolhidos do veículo GM/Omega” foram por elas examinadas com o objetivo de determinar os padrões de DNA nelas contidos, para, por meio de comparações dos respectivos genótipos obtidos, estabelecer eventuais condições de vínculo de parentesco com APARECIDA APRIJO DE OLIVEIRA BARBOSA e GIVALDO DE LIMA BARBOSA (genitores da vítima MICHELLE).

Após a realização do mencionado exame, com a aplicação do método científico apropriado, consoante se vê descrito no laudo, as peritas concluíram que a substância pardo avermelhada detectada no porta malas do veículo pertencente ao acusado tem 72,82% de probabilidade de pertencer a um filho do casal acima mencionado. Dita conclusão está vazada nos seguintes termos:

“No fragmento de carpete, contendo impregnação de substância pardo-avermelhada, recortado da parte inferior do porta-malas foi detectada mistura de DNA, proveniente de no mínimo duas pessoas. Através da análise da mistura é possível afirmar que o perfil genético de um dos contribuidores para a produção da amostra é compatível com o de um filho biológico de Aparecida Aprijo de Oliveira Barbosa e de Givaldo de Lima Barbosa. Foram realizadas análises estatísticas para determinar o Índice de Paternidade Reversa, tomando-se os valores de freqüências dos alelos identificados pelos marcadores utilizados, segundo os seus bancos de dados específicos. O valor encontrado é de 2,68. A probabilidade de Paternidade Reversa encontrada, baseando-se nos mesmos parâmetros, é de 72,82%. O perfil genético encontrado na mistura, compatível com o de um filho biológico do casal citado anteriormente apresenta uma Freqüência de Ocorrência de 1 em 10 (dez).” (destaquei).

APARECIDA e GIVALDO são genitores, também, de CRISTIANO DE OLIVEIRA BARBOSA (único irmão de MICHELLE), a quem as mesmas peritas examinaram e confrontaram seu material biológico com aquele encontrado no veiculo do acusado, tendo, em seguida, concluído que a substância pardo avermelhada localizada no citado GM/Omega NÃO foi produzida por ele, vejamos:

“Considerando o objetivo pericial proposto, as signatárias concluem que a análise dos alelos identificados na amostra de carpete recolhida do veículo GM/Omega, placa JEF 4049-DF, determina que a referida amostra não pode ter sido produzida pela deposição de material biológico da pessoa de Cristiano de Oliveira Barbosa, visto que na mistura de alelos observada na amostra mencionada, após amplificação com o sistema Dqa, não foi detectado o alelo 3, o qual se encontra no perfil genético da amostra de sangue periférico extraído da pessoa citada anteriormente, amplificada com o mesmo sistema” (confira-se às fls.586/589, reproduzido às fls.596/599 - destaquei).

As duas peritas foram arroladas como testemunhas e ouvidas em Juízo, sob o crivo do contraditório, ocasião em que confirmaram o inteiro teor dos laudos ora mencionados, conforme se extrai dos respectivos termos de declarações acostados às fls.676/678 e 711/713 dos autos.

O acusado alegou que a mancha de sangue encontrada no porta malas do seu veículo teria sido “plantada” pela polícia, na medida em que inicialmente fora realizado um exame em veículo, o qual encontra-se acostado às fls.94/95 dos autos e, através dele, nada de irregular foi encontrado pelo perito.

Contudo, o primeiro exame, segundo o perito que assina o respectivo laudo, destinava-se a encontrar “grandes concentrações de sangue e perfuração por projétil de arma de fogo”. (ver fl.714).

Ademais, a perita Ana Paula, à fl.713, asseverou que “se a mancha tivesse sido “plantada” no veículo do réu, teria que ter sido por alguém que seja parente ou provável filho dos pais da vítima em uma probabilidade de 72, 82%” (destaquei).

No que pertine à importância da realização do exame de DNA, invoco as argumentações constantes das alegações finais apresentadas pelo douto Promotor de Justiça, Dr. Rômulo Douglas Gonçalves de Oliveira, para fazer parte integrante da presente, como se aqui estivessem transcritas.

A versão apresentada pelo acusado quanto a sua conduta no dia e horário aproximado do desaparecimento da vítima, ou seja, seu álibi, oferecido aos peritos responsáveis pela reconstituição foi, em apertada síntese, o seguinte: estava abastecendo seu veículo no posto Shell do Núcleo Bandeirante, por volta das 17h30min, quando recebeu telefonema da sua mulher solicitando que fosse para sua residência aguardar a chegada de uma geladeira. Gastou R$ 20,00 (vinte) reais com o combustível. Do posto foi para casa passando pelo Park Way, pelo posto de gasolina BR, pelos motéis, por cima da via férrea, “há uns quinhentos seiscentos metros”. Parou no meio do caminho para falar com a esposa com quem encontrou “na subida de casa, que tem a entrada para a Colônia Agrícola Arniqueiras, que é asfalto também, eu falei com minha esposa, ela ia descendo, paramos o carro um do lado do outro”. Essa parada demorou poucos minutos.

Continuando a esboçar sua versão, JOSÉ PEDRO disse que, em seguida, foi para casa e lá permaneceu até por volta de 18h30min. Saiu novamente para o Núcleo Bandeirante, foi até Sobradinho, passou pelo casa de um armeiro, seu conhecido, para fazer limpeza em uma arma que pretendia vender, porém, como verificou que a residência do amigo encontrava-se com as luzes apagadas, fez o caminho de volta, passando pelo Lago Norte, na Chácara do Dr. Jorge, situada na MI 09, com quem, mais cedo, combinara de se encontrar, porém, ao chegar ao local o Dr. Jorge já havia ido embora. Eram entre 20h a 20h30. Voltou pelo balão do torto e “acima da mineral” acabou o combustível, isto próximo do posto de gasolina situado acima da entrada para o supermercado Carrefour norte, razão pela qual caminhou até o mesmo e comprou 02 (dois) litros de combustível, colocou-o no veículo e seguiu para o Núcleo Bandeirante, tendo parado em um restaurante a fim de perguntar se o proprietário, alcunhado por “paulista”, lhe havia deixado alguns documentos. Em seguida, colocou mais cinco reais de gasolina no posto situado no final da 2ª Avenida. Chegou na sua residência por volta de 21h15 a 21h20 e começou a limpar a geladeira. Durante todo o trajeto percorrido, imprimiu velocidade de 100 Km/h a 120 Km/h.

Passado “um tempinho” chegou na residência um tio de MICHELLE noticiando seu sumiço, ocasião em que JOSÉ PEDRO disse que lhe indagou se já haviam procurado “em todo lugar”. Eram 22h aproximadamente.

Para a Autoridade Policial da Delegacia de Homicídios, porém, JOSÉ PEDRO ofereceu a versão segundo a qual percorrera todo o caminho nupercitado na companhia de “BAIANO”, confira-se o seguinte trecho:

“... passou em frente ao colégio La Salle, desceu reto, até a loja do Alfredo, vulgo BAIANO, após isto, acompanhado de BAIANO, desceu reto a Segunda avenida, passou em frente a casa de um armeiro de nome ALMEIDA (...) manobrou e foi embora pelo mesmo caminho, pois as luzes estavam apagadas (...) pegando a via de acesso a Água Mineral, no momento em que o combustível acabou. Comprou dois litros de gasolina percorrendo uma distância de aproximadamente 500 metros, à pé, colocou-a no veículo (...) após deixar BAIANO, parou no restaurante de PAULISTA (...) foi para casa”.(destaquei).

Além da divergência quanto a presença de BAIANO, os peritos constaram outra relativa ao último abastecimento, ou seja, para os peritos, JOSÉ PEDRO disse que teria gasto cinco reais com combustível no posto existente no final da 2ª Avenida e, para Autoridade Policial que o inquiriu na sede da DH, negou este fato.

Em conclusão, os experts, apontaram novas divergências que desmoronaram a versão de JOSÉ PEDRO, revelando indícios contra ele nesta etapa processual, conforme consta às fls.274./277 dos autos:

1 - O consumo médio aferido no veículo do acusado foi de 10Km/h, enquanto que na versão dele seria de 4,85Km/h;

2 - Na data do desaparecimento da vítima MICHELLE, 10/09/98, no posto onde JOSÉ PEDRO abasteceu pela primeira vez, o preço das gasolinas comum e aditivada, segundo informações dos funcionários do estabelecimento, seria de quase R$ 1,00 por litro, portanto, à época, com a importância de R$ 20,00 (vinte) reais, teria colocado 20, 181 litros.

Efetuada a reconstituição, os peritos constaram que o combustível não foi totalmente consumido no percurso total de 97,1Km desde o posto até o ponto onde JOSÉ PEDRO afirmou ter acabado, ou seja “o veículo não parou próximo à Água Mineral por falta de combustível”.

3 - Apesar disso, abasteceu-se novamente o veículo com os dois litros mencionados por JOSÉ PEDRO e procedeu-se o percurso daquele local até o posto do Núcleo Bandeirante onde ele disse que novamente teria abastecido o carro com a quantia de R$ 5,00 (cinco) reais. Percorreu-se 15,2Km. “Saliente-se que o veículo parou, por falta de combustível, com o percurso total de 20Km, portanto, com apenas dois litros de combustível, o automóvel não faria o percurso de onde afirma ter parado até sua residência, que perfez total de 23Km”.

Noutro giro, o acusado, curiosamente, ao deparar-se com o tio de MICHELLE em sua residência, Sr. ROMILDO APRIJO DE OLIVEIRA, apressou-se em dizer-lhe que estava “cheirando gasolina” porque teria ficado sem combustível e teve que colocá-lo pessoalmente em seu veículo e assim procedeu sem que ROMILDO nada lhe indagasse a esse respeito. Colha-se, por oportuno, trecho do depoimento prestado por este à fl.681:

“... que o réu disse que estava acabando de chegar em casa; que ele havia ficado sem gasolina e ele próprio disse que estava com cheiro de gasolina porque a havia colocado no veículo; que o declarante não sentiu que o réu estivesse exalando cheiro de gasolina; que o declarante observou que o veículo do réu estava molhado na lataria e chegou a encostar no mesmo, verificando que o motor estava quente ...” (destaquei).

Voltando à versão do acusado no que tange à companhia de BAIANO, verifico que ele a esboçou somente na Delegacia e não voltou a mencioná-la perante os peritos da reconstituição, porque BAIANO logrou ser ouvido pelos policiais, antes da realização desta diligência e não confirmou o “alibi”. A propósito, trago a colação o trecho do depoimento dele, colhido sob a minha Presidência, litteris:

“que o depoente tomou conhecimento do desaparecimento da vítima no dia seguinte, através do próprio réu, que foi ao comércio do depoente pedindo a ele que dissesse para a polícia que ambos teriam estado juntos em Sobradinho; que o depoente disse ao réu que não mentiria para a polícia; que o réu não explicou para o depoente porque queria que ele mentisse; que o réu somente disse que a vítima havia desaparecido e que o estavam acusando como sendo o autor do fato (...) que o depoente não foi pressionado pelos policiais na delegacia” (fl.693 – destaquei).

Prosseguindo com sua versão, o acusado negou peremptoriamente a existência de qualquer relacionamento amoroso entre ele e a vítima. Contudo, todas as testemunhas, sem exceção, afirmaram exatamente o contrário, vejamos:

“... que a declarante soube através de amigas de colégio da vítima que esta estava mantendo um relacionamento amoroso com o réu (...) que as colegas de colégio lhe disseram apenas que a vítima havia dito que estava namorando com um rapaz de nome Pedro, que era casado com Eliane e que ambos tinham um filho...” (Aparecida Aprijo – fl.679 – destaquei).

“... que a vítima relatou para a declarante que tinha um namorado chamado José Pedro, que ele era policial civil e trabalhava na carceragem da CPE; que ele era casado com Eliana e possuía entre 35 e 38 anos; que a vítima relatou que perdeu sua virgindade com o réu; que ela relatou que ia com ele para motéis e descrevia aquele local que tinha cama redonda, muitos espelhos, vídeos pornográficos e gel usado para a prática de relação sexual e sabonetes e shampoos em miniatura...” (Natália – fl.685 – destaquei).

“... que a declarante era colega de escola da vítima e soube através desta que ela estava namorando um policial de nome José Pedro, que era casado com uma mulher de nome Eliana (...) que a vítima disse que havia perdido sua virgindade com o réu e com ele freqüentava os motéis “Mon Cheriè” e “Ame Mais” (...) que a vítima lhe disse que o réu lhe dava dinheiro para comprar anticoncepcional...” (Sevediana – fl.688 – destaquei).

Abro um parênteses para ressaltar, por oportuno, que a gerência do motel “Ame Mais”, em resposta indagação da diligente Autoridade Policial da DH, confirmou que tanto o veículo Omega, quanto outros pertencentes ao acusado estiveram no estabelecimento citado por SEVEDIANA, pelo menos, cinco vezes (ver fls.190/192).

A gerência do motel “Play Time” também acusou a presença do veículo pertencente ao acusado, naquele estabelecimento, pelo menos duas vezes e a do motel “Paradise” uma vez, conforme comprovam os documentos de fls.250 e 255, respectivamente. Esses fatos, por si só, rechaçam a afirmação feita pelo acusado no interrogatório judicial prestado às fls.577/583, no sentido de que “já esteve em motel umas duas vezes”.

Volto a transcrever os trechos da prova oral que se logrou colher, no sentido de que acusado e vítima mantinham relação de namoro:

“... que o declarante era colega de sala da vítima; que ela lhe disse que estava namorando um rapaz de nome Pedro, que era policial civil (...) que o declarante viu, por duas vezes, a vítima ingressar no veículo GM/Omega azul escuro, durante o dia, a uma distância aproximada de vinte e cinco metros; que o declarante viu que o condutor do veículo possuía altura mediana, tinha o rosto magro e o nariz alongado; que não deu para perceber se ele tinha cabelos grisalhos, devido a distância; que ao lhe ser apontado o réu nesta assentada, o declarante disse que ele é semelhante ao condutor do Omega...” (Wilson Ferreira Júnior – fl. 689 – destaquei).

“... que a declarante era prima da vítima e soube através dela que a vítima mantinha relacionamento amoroso com o réu; que a vítima relatou que mantinha relação sexual com o réu e que costumava ir cerca de duas vezes por mês a alguns motéis (...) que a vítima disse que era virgem e perdeu sua virgindade com o réu (...) que cerca de um mês antes do fato, a vítima a vítima ligou para a declarante e contou-lhe que estava grávida; que ela havia comprado um kit de farmácia através do qual constatou a gravidez; que a vítima estava nervosa e com medo da reação do réu e de seus familiares que nada sabiam a respeito da gravidez...” (Meirilene – fl.683 – destaquei).

MEIRILENE, na mesma ocasião, foi além da simples confirmação do namoro existente entre a vítima e o réu, chegando a delinear o comportamento deste, para com adolescentes, verbis:

“... que certa ocasião a declarante foi a uma sorveteria acompanhada do réu e da vítima; que nessa ocasião o réu também chegou a dizer para a declarante que era namorado da vítima; que nesse dia, depois de voltarem da sorveteria, o réu parou próximo de um telefone público, a fim de que a vítima verificasse se haviam créditos em algumas fichas telefônicas que ele lhe entregou; que quando a vítima desceu do carro, o réu disse para a declarante que ela era bonita e pediu-lhe um beijo; que a declarante se negou, até porque sua prima gostava muito do réu; que quando a vítima voltou o réu saiu com o veículo e quando o mesmo estava em movimento o réu colocou uma das mãos para trás e a passou sobre a perna da declarante; que a declarante afastou-se para trás do banco; que acredita que a vítima tenha percebido porque ela xingou o réu de bobo e quando o veículo parou, desceu batendo a porta com força; que a declarante esclarece que desceu do veículo junto com a vítima; que a declarante comentou com a vítima acerca do comportamento do réu, a fim de que ela o deixasse, que a vítima disse que seria tarde demais pois já estava apaixonada...” (destaquei).

Por outro lado, ao ser indagado a respeito de prováveis ligações telefônicas existentes entre a vítima e acusado, este afirmou que as mesmas nunca existiram. Ao ser informado que a quebra do seu sigilo telefônico fora decretada e que os respectivos extratos revelavam diversas ligações da sua linha telefônica para o número existente no quarto da adolescente MICHELLE e vice versa, o mesmo afirmou que efetuara ligações apenas para a genitora dela “para dar orientações à mesma em face de algum problema...”

A genitora da vítima, APARECIDA APRIJO, por sua vez, negou este fato. Ademais, todos os telefones de JOSÉ PEDRO foram encontrados na agenda de MICHELLE, junto com algumas declarações de amor desta para com aquele, segundo constatei ao examiná-la. Às fls.419/421 foram acostados parte deste documento apreendido (agenda), os quais foram periciados e, através do laudo grafoscópico de fls.417/418, os peritos criminais atestaram que eles foram manuscritos por MICHELLE.

Os extratos telefônicos que acusam a existência de ligações telefônicas recíprocas entre réu e vítima encontram-se, na sua maioria, acostadas aos dois apensos e, alguns no bojo dos autos principais. Se por um lado não se conhece o teor dessas ligações, já que a interceptação, por óbvio, foi posterior a elas, por outro lado, revelam, a meu ver, indícios contra o acusado que, em todos os momentos que lhe coube falar pessoalmente nos autos, negou esta evidência.

Pouco antes do desaparecimento da vítima, a pessoa de EULÍLIA PINTO DE SOUSA viu o acusado passar dirigindo “um veículo de cor escura”. MICHELLE, neste momento, referiu-se a ele como o “bobão do José”. A vítima relatou, também, “que o réu a estava “alugando” pelo telefone, sem explicitar o que significava aquele termo; que a depoente chegou a dar conselhos para a vítima, dizendo que ela era muito jovem, e o réu era mais velho e era casado”. ( fl. 696 - destaquei).

EULÍLIA é casada com ROMILDO e foi ela quem disse a ele que o acusado passara defronte a sua residência no dia do desaparecimento da vítima, razão pela qual ROMILDO procurou o acusado com o intuito de saber notícias de MICHELLE, exatamente naquela ocasião citada linhas atrás, quando JOSÉ PEDRO disse estar “com cheiro de gasolina”.
A pessoa de ELIZABETE que estava com a vítima momentos antes do seu desaparecimento, relatou que ela recebera um telefonema e saíra dizendo que iria encontrar uma amiga nas proximidades do posto da Telebrasília.

WILSON ALMEIDA MACEDO, vigia da Telebrasília, avistou um GM/Omega de cor escura estacionar nas proximidades e dele descer um homem de cabelos curtos e grisalhos na direção de um lava jato para, logo em seguida, retornar acompanhado de uma jovem de cabelos claros, na altura dos ombros. Disse “que o cabelo da pessoa que viu descendo do Omega era semelhante ao do réu presente nesta assentada” (confira-se à fl.695).

Por fim, constato que o termo de apresentação e apreensão de fl.346, traz uma revelação, no mínimo curiosa: ao proceder a busca e apreensão deferida pelo Juízo do Tribunal do Júri da Ceilândia, os policiais lograram apreender, no armário do réu localizado na carceragem da CPE, à época seu local de trabalho, a folha de papel acostada à fl.347 dos autos, com a seguinte frase feita em impressora de computador:

“AGORA QUEM CHORA SOU EU O PRANTO QUE ELA DERRAMOU”. Quem seria ela? Porque ela teria se derramado em pranto? Porque agora é ele quem chora? Quem escreveu essa frase? Porque? Essas são questões que somente o acusado ou os Jurados, enquanto Juizes Naturais da causa, poderão responder.

Diante de todos os indícios que acabo de elencar, não vejo como acolher, ao menos por ora, nesta etapa do iudicium acusationis, a impronúncia pleiteada pela ilustrada e combativa defesa, cabendo, pois, aos Jurados, e somente a eles, a apreciação aprofundada da prova, a análise do seu mérito, a fim de acatar a versão que entenderem seja mais consentânea com a prova dos autos e o Ordenamento Jurídico, se da acusação ou da defesa, pena de usurpar-lhes a competência garantida constitucionalmente.

No que tange às qualificadoras, tenho que a do motivo torpe deve ser apreciada pelo E. Conselho de Sentença, na medida em que está intrinsecamente ligado aos fatos narrados na denúncia ora aceitos, sendo despiciendo tecer maiores considerações a respeito, sob pena de influenciar o ânimo dos Juizes de fato. Destaco, somente a título de ilustração, trecho do depoimento prestado pela testemunha JAIME à fl.694, verbis:

“... que o depoente confirma ter presenciado no seu escritório o réu conversando com uma pessoa e dessa conversa extraiu que uma mulher estaria grávida e teria feito ou faria um aborto e para isso precisava de dinheiro; que o depoente ouviu sua filha de nome Ângela aconselhar o réu a não se envolver com meninas tão jovens...” (destaquei).

Já no que se refere à dissimulação melhor sorte não ampara a pretensão acusatória, devendo a mesma ser afastada de plano, porquanto está descaracterizada estreme de dúvidas. É de se ver que o Ministério Público, ao imputar esta qualificadora ao acusado, limitou-se a afirmar que ele agiu “mediante dissimulação”, sem, contudo, lograr esclarecer em que ela teria consistido. Trata-se de qualificadora de cunho objetivo, a qual, nessa qualidade, deveria estar plenamente delineada, até para permitir ao acusado o exercício do seu sagrado direito de defesa. Qualquer entendimento contrário, a meu ver, será privilegiar a mera conjectura, a mera suposição, em detrimento dos indícios idôneos que devem sempre prevalecer sobre aquelas.

Assim, forte no entendimento segundo o qual o (a) Juiz (a) não é mero (a) chancelador (a) da denúncia, nem mero espectador (a) do processo, cabendo a ele (a), neste momento processual, extirpar o excesso de acusação, excluo a qualificadora da dissimulação.

Ante o exposto, julgo procedente, em parte, a denúncia e, com fundamento no artigo 408 do Código de Processo Penal, PRONUNCIO o réu JOSÉ PEDRO DA SILVA como incurso nas penas do artigo 121, § 2°, inciso I (motivo torpe), e artigo 211, ambos do Código Penal, a fim de que seja levado a julgamento pelo Júri Popular.

Permito que o acusado aguarde o julgamento em liberdade, porque depois de ter sido solto durante a instrução e compareceu tanto no Juízo da Circunscrição Judiciária de Ceilândia, quanto neste Juízo, todas as vezes em que foi intimado.

P.R.I.C.

Brasília-DF, 22 de setembro de 2000.


LEILA CURY
Juíza de Direito Substituta

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Penal III Crimes em Brasilia

VIOLÊNCIAOs pontos do medoEstudo da Polícia Civil mostra as áreas mais vulneráveis à ação dos bandidos no Plano Piloto. Crime mais comum é o roubo a pedestres. Ocorrências cresceram 15,4% na parte central de Brasília em 2006

O medo tomou conta do Plano Piloto. Motoristas, pedestres, donas-de-casa, pouca gente se sente segura na região central de Brasília. Levantamento da Polícia Civil aponta que os crimes contra o patrimônio e de ameaça à vida cresceram nos últimos dois anos nas asas Sul e Norte. Foram 3.450 casos de delitos, como homicídio, latrocínio, estupro, roubos, furtos e seqüestros relâmpagos registrados no ano passado. O levantamento realizado pelas duas delegacias da região — 1ª DP (Asa Sul) e 2ª DP (Asa Norte) — detalha inclusive os locais e os horários prediletos dos bandidos. Na Asa Norte, atacam principalmente na Rodoviária, Torre de TV, Vila Planalto e no estádio Mané Garrincha. Os locais concentram 27% do total de ocorrências registradas na 2ª DP. Os criminosos preferem cometer crimes como assaltos a pedestres, veículos, postos de gasolina e comércios a partir do fim da tarde de sexta-feira (veja quadro ao lado). “Vamos começar ações conjuntas para melhorar a segurança na área ao redor do Conjunto Nacional. É uma das que mais nos preocupa, pois os bandidos se aproveitam da grande quantidade de pessoas”, disse o delegado-chefe da 2ªDP, Antônio José Romeiro. O aumento de ocorrências nas asas Sul e Norte é 15,4% em relação a 2005, quando as duas delegacias do Plano Piloto tiveram 2.989 ocorrências. Já na Asa Sul a insegurança é mais freqüente no Parque da Cidade, Conic, Setor Comercial Sul, Setor Hospitalar Sul e nas proximidades do Touring. Quem comete crimes no bairro ataca com mais freqüência na quarta-feira, a partir do fim da tarde. “A maioria dos crimes daqui é sem ameaça. Mas também há roubos, que ocorrem no Conic e tarde da noite. Ainda assim, boa parte deles é praticada por adolescentes. Eles buscam objetos para comprar drogas. Por isso, trabalhamos em conjunto com a Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA)”, explicou a delegada-chefe da 1ª DP, Suzana Machado. Dos 18 assassinatos registrados na Asa Sul, oito ocorreram na parte central da cidade — quatro no prédio do Touring e quatro no Setor de Diversões Sul. Alarme Os números altos, no entanto, geram descrença da população em relação ao trabalho policial. Assim, muitos cidadãos recorrem a outras formas de proteção. O bombeiro Alexandre Andrade, 33 anos, mora na 707 Sul. A quadra está entre os 12 locais mais freqüentes para os crimes praticados com violência ou grave ameaça na Asa Sul. Além de um sistema de alarme 24 horas instalado na casa onde vive com a família, Andrade conta com dois cães da raça pit bull treinados para a guarda. Boquinha e Princesa obedecem a vários comandos de voz, inclusive o de ataque. A precaução do bombeiro encontra explicação na rotina violenta da quadra residencial . A casa de uma das vizinhas sofreu duas invasões. A da esquerda passou pelo trauma de um seqüestro relâmpago. E o carro da mulher dele acabou três vezes arrombado na frente da residência. “Aqui é passagem de traficante por causa das escolas públicas. Também há pensões demais, o que atrai muita gente desconhecida. O jeito é se defender como dá”, afirmou Andrade, que mora na 707 Sul há cinco anos. Foram registrados na quadra 22 crimes no ano passado e cinco em 2005.
O comandante do 1º BPM (Asa Sul), tenente-coronel Ricardo Martins, disse que o relatório divulgado pela Polícia Civil servirá de referência para a Polícia Militar. Segundo ele, os detalhes revelados pelas ocorrências registradas nas delegacias determinarão o policiamento nas quadras residenciais e comerciais do bairro. “A PM já faz o trabalho preventivo, mas agora temos em mãos os pontos críticos. Isso facilita o trabalho ostensivo, mesmo que muitas pessoas deixem de registrar os pequenos furtos e roubos”, avaliou. Para o tenente-coronel Martins, o número de homens do batalhão não é o ideal. Mas suficiente para combater os crimes mais comuns da região, que, segundo ele, são os furtos de veículos e no interior deles. Na Asa Norte, a PM estuda programa para trabalhar em parceria com porteiros e vigias. Eles receberão informações sobre como proceder em caso de assaltos. Postos A violência nos primeiros meses de 2007 trouxe o medo para o local de trabalho do gerente de posto de gasolina da 303 Sul. Odilon Lopes, 32 anos, teve prejuízos em três assaltos em janeiro e outro em abril. Ouviu histórias de frentistas apavorados com o ataque de bandidos armados com revólver. E virou testemunha da escalada da criminalidade no Distrito Federal. Relatório de análise criminal divulgado pela Polícia Civil do DF aponta que os crimes contra o patrimônio, por exemplo, deram saltos em várias regiões administrativas na comparação entre os quatro primeiros meses deste ano e 2006. Roubos a postos de combustíveis, como os sofridos pelo gerente Odilon, cresceram em 9,8% no DF. Houve 193 casos entre 1º de janeiro e 30 de abril do ano passado. E 212 no mesmo período de 2007. “O jeito é mudar a rotina. Os frentistas mantêm o mínimo de dinheiro no bolso durante a madrugada e devem colocar o que arrecadam no cofre. Também não devem reagir”, afirmou.


A PM já faz o trabalho preventivo, mas agora temos em mãos os pontos críticos
Ricardo Martins, comandante do batalhão da PM da Asa Sul

Comerciantes preocupados com roubosLevantamento da Polícia Civil aponta que, em média, uma loja é assaltada na Asa Norte a cada 87 horas. Foram 100 casos em 2006. Delegacia vai criar uma linha direta com os empresários, como existe na Asa Sul
Elisa Tecles e Guilherme Goulart Da equipe do Correio Um dos crimes que mais assustam no Plano Piloto é o assalto em áreas comerciais. Lojas, bancos e supermercados estiveram entre os principais alvos dos bandidos durante todo o ano passado. Na Asa Norte, os roubos a comércio cresceram 40% — foram 100 casos em 2006 contra 71 em 2005. A média é de um caso a cada 87 horas na região, de acordo com o Relatório de Análise Criminal, da Polícia Civil. O empresário Rafael Ribeiro, 27, viveu momentos de terror há duas semanas. Três homens armados invadiram a padaria da família do rapaz, que fica na 411 Norte. Além de levar todo o dinheiro do caixa, os bandidos tomaram celulares e carteiras dos clientes. “A loja estava aberta, ainda eram 19h. Eles mandaram todo mundo deitar no chão e viraram a gaveta do balcão para levar o dinheiro”, lembra Rafael. A padaria do rapaz fica em uma das quadras apontadas como as mais perigosas no relatório de análise criminal, disponível desde sexta-feira na página da Polícia Civil na internet (www.pcdf.df.gov.br). Com a padaria funcionando há 10 anos na quadra, Rafael não sofria um assalto como esse havia sete anos. “Aqui era um lugar tranqüilo, não acreditei quando isso aconteceu. Só não tivemos um prejuízo maior porque nunca deixamos mais de R$ 50 no caixa”, diz o empresário. Para proteger a loja e os clientes, existe um sistema de câmeras, mas que não filmou os assaltantes porque eles ficaram fora do raio de alcance das imagens. Rafael registrou a ocorrência na 2ª DP (Asa Norte), mas os autores do assalto ainda não foram localizados.
O roubo na padaria de Rafael ocorreu às 19h, horário em que 28,5% dos crimes registrados na Asa Norte ocorrem. O período da tarde, entre as 12h e as 18h, concentra a maior quantidade de delitos, cerca de 32%. A sexta-feira é o dia da semana mais comum para ataques a comércio, pedestres e veículos. Segundo o delegado-chefe da 2ªDP, Antônio Romeiro, as quadras mais vulneráveis da Asa Norte contarão com ações intensas para inibir os bandidos. “Vamos identificar onde estão as maiores demandas e atender a essas necessidades”, explica. O delegado quer levar para a Asa Norte uma estratégia já utilizada pela 1ª DP (Asa Sul) para diminuir os assaltos em quadras comerciais. Por meio de um sistema de rádio, os lojistas podem acionar a polícia em casos de emergência. “É importante que eles possam se comunicar com a polícia com rapidez, assim nós compareceremos prontamente ao local”, afirma. Movimento intenso Com quatro lojas roubadas em 2006, a comercial da 307 Norte também é muito visada pelos assaltantes. A padaria de Erivalda Gomes, 40, sofreu com a ação dos criminosos no fim do ano passado. A loja foi assaltada por um homem armado, que invadiu o local no fim do dia, quando não havia mais clientes. Para a empresária, a quadra é alvo constante dos bandidos por conta do movimento intenso. “Aqui tem muito comércio e gente passando o tempo todo, isso chama a atenção dos bandidos”, avalia. Depois do assalto, a empresária fez mudanças na padaria para evitar novos transtornos. A disposição das prateleiras e do caixa foi trocada para dar maior visibilidade a quem entra e sai do estabelecimento. Apesar disso, Erivalda acredita que a situação da quadra não deve mudar enquanto houver aglomeração de moradores de rua ao redor da comercial. “Eles entram aqui, pegam alguma coisa e saem correndo. Isso assusta os clientes e a gente também”, comenta.
Na Asa Sul, o roubo a comércio diminuiu entre 2005 e 2006. O número de casos caiu de 65 para 59, pouco mais da metade do registrado na Asa Norte em todo o ano passado. De acordo com o relatório da polícia, o lugar mais propícios a roubos e furtos em comércio é o Setor de Diversões Sul. Na região, a maioria dos delitos ocorre às sextas-feiras, entre as 12h e as 18h.
Correio, 15.05.2007 - Cidades

Juventude violenta

JUVENTUDE VIOLENTAArmados e destemidos Pesquisa revela que as chances de os jovens do DF praticarem crimes aumentam em 25,8% quando eles portam armas de fogo Mariana BrancoJuventude perigosa e em risco constante. No último sábado, mais um jovem foi vítima da violência no Distrito Federal: o estudante de Direito Paulo Roberto Rosal Filho, 24, foi assassinado com um tiro na saída de uma festa na Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB). O suspeito é Bruno da Silva Faria, 19 anos, que está preso. Caso se confirme que o acusado cometeu mesmo o homicídio, ele entrará para uma triste estatística: a de que o porte de arma de fogo aumenta em 25,8% as chances de um jovem do DF, entre 18 e 24 anos, praticar algum crime. Além disso, 7,5% dos brasilienses nessa faixa etária já andaram armados. Desses, 55,7% já utilizaram a arma.Os dados fazem parte da pesquisa Fatores Determinantes da Violência Interpessoal entre Jovens no DF, da Caixa Seguros. O estudo aponta ainda que 8,4% das pessoas entre 18 e 24 anos nas cidades do Distrito Federal têm acesso, de alguma forma, a armas de fogo. A maior parte declarou que tem acesso junto à vizinhança (55,4%), mas um percentual também alto de jovens afirmou que pode obter facilmente a arma dentro da própria casa (29,3%). Os outros locais citados foram ambiente de trabalho (8,7%) e escola ou faculdade (6,5%)."O fato de ter acesso à arma de fogo leva ao porte e a sua conseqüente utilização", comentou o coordenador da pesquisa, Miguel Fontes. Para ele, não há surpresa no fato de que mais da metade dos jovens entrevistados afirmaram ter acesso a armas de fogo junto à vizinhança."Vizinhança, no mais das vezes, quer dizer grupo de amigos, o mesmo se aplicando à escola e à faculdade. É, na verdade, a forma de acesso mais comum", diz o pesquisador.TendênciaOutro dado importante do levantamento é que, entre os entrevistados, levando-se em conta apenas aqueles que já foram vítimas de algum tipo de violência, o percentual de jovens que já andaram portando armas de fogo quase dobra (14% do total). "Violência gera violência. Uma vez sofrida uma agressão, a tendência a se tornar agressor e adotar uma atitude defensiva é muito maior", afirma Fontes.A radiografia do porte de armas entre os jovens no DF mostra também que existe uma lógica geográfica e social na violência. Samambaia, Planaltina e Ceilândia, cidades onde boa parte da população é de baixa renda, têm os maiores índices de porte de armas entre a população de 18 a 24 anos do DF. Em Samambaia, 12,5% dos jovens já andaram armados. Em Planaltina, são 10,2% e 8% em Ceilândia, segundo a pesquisa.O estudo da Caixa Seguros foi realizado junto a 1.067 jovens do DF, residentes em oito regiões administrativas: Plano Piloto, Lago Norte, Taguatinga, Ceilândia, Samambaia, Sobradinho, Sobradinho II e Planaltina. Para o sociólogo Antônio Flávio Testa, especialista em segurança pública, armas de fogo se tornam um instrumento ainda mais perigoso nas mãos de jovens. "Eles estão formando o caráter, descobrindo o mundo. A arma é um instrumento que dá confiança, só que ela tira a vida de pessoas", analisa. Testa afirma que a disputa e vingança entre os grupos de jovens vêm se tornando cada dia mais comuns no DF. "É um círculo vicioso. Quem já foi agredido quer atingir seu inimigo. Muitas vezes, há outros fatores por trás dessas brigas, como ingestão de álcool e drogas, além do tráfico de drogas"Para a presidente da Organização Não-Governamental (ONG) Comitê Nacional das Vítimas da Violência (Convive), Valéria Velasco, o porte de armas deveria ser fiscalizado com rigor. Em 2005, a ONG faz campanha a favor da proibição da venda de armas de fogo durante o referendo popular. "A população não quis o fim da comercialização, mas temos o Estatuto do Desarmamento."
Dor sem fim entre os familiares.
A violência entre os jovens deixa marcas profundas nas famílias. "Não há nada pior que a dor de perder um filho. Isso deixa um vazio que nunca vai ser preenchido", desabafa a professora Fransciana Rodrigues Rosal, 53 anos, a mãe de Paulo Roberto Rosal Filho, 24 anos, o Paulinho, morto no último fim de semana na saída de uma festa na AABB.Ainda muito abalada com a morte do filho, a mãe procura forças para perdoar as pessoas que mataram Paulinho. Ela acredita que, se seu filho estivesse vivo, pediria que ela fosse compreensiva. "O meu consolo foi ter criado um ótimo filho. Tenho dó dos pais dos agressores. Eles devem estar morrendo de desgosto", destaca."Paulinho era uma ótima pessoa. Tão bonito e tão humilde. Ele era o caxias da turma, sempre preocupado com os compromissos acadêmicos, sempre que podia corria para a biblioteca", disse a estudante de Direito e colega de Paulinho, Francisca Clotildes Costa, 24 anos. "Isso nos dá uma mistura de revolta e tristeza. Como uma pessoa tão importante, com um futuro tão brilhante pela frente, pode se assassinado por motivo tão fútil? Paulinho era da paz", diz Francisca Costa.A tia do produtor de eventos Ivan Rodrigo da Costa, o Neneco, 29 anos, Vânia de Freitas, 49 anos, nunca esqueceu da forma brutal com que ele foi morto. O rapaz foi espancado, no ano passado, por um grupo de capoeiristas, em frente a boate Fashion Club, no Setor de Diversões Norte. Morreu com infecção generalizada, nove dias após ter sido agredido. "Quando a casa está vazia, eu choro. Lembro que falta o barulho que só o Neneco sabia fazer. Ele sabia levantar o meu astral", conta Vânia de Freitas.O tio de Neneco, Wilson de Freitas Júnior, 40 anos, também tenta esquecer a dor. "Não temos mais motivos para comemorar as datas festivas. O réveillon não foi o mesmo".
Jornal de Brasílila, 17/01/2007 –CIDADES